Publicado em 21 de outubro do ano passado, o Decreto Federal 12.688/2025 estabelece metas de reciclagem de embalagens plásticas, progressivas e obrigatórias, para fabricantes, importadores, distribuidores e comerciantes.
Já em 2026, 32% de todas as embalagens e plásticos descartáveis introduzidos no mercado devem ser recolhidas e recicladas ativamente, e 22% da embalagem final deve ser composta por material reciclado. Até 2040, essas metas passam para 50% e 40%, respectivamente.
Neste cenário, o PET, resina plástica com maior índice de reciclagem no Brasil, assume posição estratégica na circularidade e fabricação de embalagens.
De acordo com o mais recente estudo encomendado pelo Movimento Plástico Transforma e realizado pela consultoria MaxiQuim, do 1,012 milhão de toneladas de resina PCR produzido no Brasil em 2024, o PET responde por 39% (397 mil toneladas).
“O setor do PET já apresenta índice de reciclagem elevado, circularidade na fabricação de novas embalagens e uma demanda crescente pelo material reciclado”, constata Auri Marçon, presidente-executivo da Associação Brasileira da Indústria do PET (ABIPET).
“Com isso, o PET possui posição estratégica diante das metas estabelecidas pela nova norma, para que sejam cumpridas pelas empresas fabricantes de produtos (usuárias de embalagens), tanto em relação ao índice de reciclagem quanto de incorporação do conteúdo reciclado em novas embalagens.”
Competitividade do PET reciclado
Na avaliação de Marçon, o aumento da demanda para cumprimento das metas não deve comprometer a competitividade da resina reciclada em relação à virgem.
“Como o preço da resina virgem estava bastante defasado e a guerra no Oriente Médio está ajustando esse valor, o PET reciclado se torna mais competitivo do que era no início deste ano.”
O executivo explica que a pressão ou a atratividade do preço da resina PET reciclada depende de variantes anteriores à publicação do decreto.
No caso da resina virgem, diz, as referências para a formação do preço do produto no Brasil são internacionais, com os grandes volumes de matérias-primas movimentadas especialmente a partir da Ásia, Estados Unidos e México.
A isso somam-se, entre outros fatores, o componente frete, o fechamento do Estreito de Ormuz como consequência da guerra e a ocupação de navios com outras commodities, como minérios e fertilizantes agrícolas – todos com impacto na formação do preço no Brasil.
“A resina reciclada, por sua vez, tem a formação de preço baseada em aspectos internos do mercado, que começam com a falta de coleta seletiva, que encarecem a matéria-prima, e os custos fixos com logística e a própria atividade industrial da reciclagem.”
Marçon lembra que, antes do conflito no Irã, o preço da resina reciclada estava até 25% maior do que o da resina virgem, uma inversão da relação histórica.
“Os efeitos da guerra têm trazido oscilações e majoração de preços da resina virgem, o que pode ser um alento para o material reciclado. Como isso tem ocorrido mais acentuadamente desde o mês de março, ainda temos que analisar mais um período para avaliar como o mercado evolui.”
Demanda por resinas recicladas
Considerando todas essas variáveis, um dos cenários vislumbrados pela ABIPET é que tanto as grandes marcas como pequenos atores do mercado de bebidas, alimentos e outros produtos irão superar as metas de conteúdo reciclado definidas pelo decreto, fazendo a demanda do reciclado crescer e incrementando o volume de faturamento dos catadores e cooperativas.
Por outro lado, sobrepreços da resina reciclada acima de 10% ou 15% em relação à virgem podem levar ao desestímulo, reduzindo a demanda pelo reciclado e, consequentemente, a coleta e a renda dos catadores.
“A demanda é regida pelo brandowner, que tem os seus limites para aquisição e uso da matéria-prima e vai considerar qual é o melhor preço no momento da aplicação, seja ela virgem ou reciclada”, afirma.
Transformadores devem ficar atentos
Mesmo não acreditando em flutuações importantes no valor do PET reciclado, uma vez que os índices exigidos pelo decreto de Logística Reversa das Embalagens Plásticas já são superados pela indústria brasileira e pelos principais brandowners, Marçon alerta que os transformadores precisam ter atenção redobrada para contemplar as diferenças de preço entre esses materiais em seus contratos com os clientes finais, ou seja, os usuários da embalagem.
“Do ponto de vista sistêmico, nosso trabalho tem sido argumentar junto às autoridades para que o decreto não produza impactos negativos em cadeias onde a reciclagem e a circularidade já estejam consolidadas e avançadas, como é o caso do PET, produzindo um efeito contrário ao desejado.”
Autossuficiência do PET reciclado
O executivo reforça que o Brasil é autossuficiente na produção de PET PCR para atender as metas crescentes previstas no decreto 12.688/25.
Segundo ele, a indústria da reciclagem do PET investiu bilhões de dólares em tecnologia nos últimos anos e está apta a atender um eventual acréscimo de demanda pelo material reciclado, desde que as embalagens pós-consumo retornem às empresas recicladoras por meio de sistemas de coleta seletiva públicos.
“Por isso, defendemos o que está estabelecido na Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), que há 16 anos já estabeleceu a responsabilidade compartilhada e encadeada dessa gestão, entre cidadãos, poder público e indústria.”
Para Marçon, os municípios precisam cumprir a sua parte, estabelecendo um sistema de coleta que pode funcionar de maneira híbrida, com a criação de grandes centros de triagem onde o material reciclável possa ser separado com o trabalho realizado por cooperativas de catadores.
“Se isso ocorrer, a indústria da reciclagem do PET está preparada, com capacidade instalada para absorver tranquilamente esse aumento de produção e atender a uma demanda que também é crescente, em função do trabalho que as próprias empresas recicladoras já fazem há mais de três décadas, para desenvolver novas aplicações para o PET reciclado.”
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