As aplicações da transição energética na indústria do plástico deixaram de ser apenas diferenciais de marketing para se tornarem pilares de sobrevivência econômica e regulatória.

Em um cenário onde a energia pode representar uma fatia significativa dos custos de produção, a migração de fontes fósseis para renováveis não impacta apenas o meio ambiente, mas diretamente a margem EBITDA das empresas.

O contexto atual exige urgência. Marcos Izumida, Diretor Executivo do Centro de Energia Sustentável da Fundação CERTI, alerta que “é necessário reduzirmos as emissões causadas pela geração de energia com base fóssil, como carvão, petróleo e gás natural, para evitarmos um colapso na natureza nos próximos anos”.

Segundo dados recentes da EPE (Empresa de Pesquisa Energética), a indústria responde por mais de 30% do consumo final de energia no Brasil, o que coloca o setor no centro das discussões sobre descarbonização.

Para especialistas, a descarbonização é quase um sinônimo para transição energética. “Ambas andam juntas nos processos evolutivos de redução de emissões”, ressalta Izumida. Portanto, compreender como aplicar essas mudanças no chão de fábrica é o primeiro passo para garantir a perenidade do negócio.

Qual a importância de mudar a matriz energética na indústria do plástico?

A substituição da matriz energética vai muito além da “conta de luz”. Trata-se de um reposicionamento estratégico que protege a indústria contra a volatilidade dos preços dos combustíveis fósseis e atende a novas exigências comerciais.

Metas globais e pressão regulatória

Acordos internacionais, como o de Paris, estabeleceram a corrida pelo Net Zero (emissões líquidas zero). No entanto, o impacto é imediato através de mecanismos como o CBAM (Carbon Border Adjustment Mechanism) da União Europeia.

Essa regulação taxará produtos importados com alta pegada de carbono. Para a indústria brasileira do plástico, isso significa que não basta ter um produto de qualidade; é preciso comprovar que a energia utilizada na sua fabricação é limpa, sob risco de perder competitividade no mercado internacional.

A exigência do mercado e ESG

Grandes brand owners (donos de marcas de bens de consumo) já estabeleceram metas agressivas de sustentabilidade. Eles exigem de seus fornecedores embalagens e componentes com menor impacto ambiental.

Nesse cenário, o investimento em ESG deixa de ser acessório. A descarbonização do plástico torna-se um requisito de qualificação de fornecedores, onde empresas que utilizam energia renovável ganham preferência em contratos de longo prazo.

 Transição energética na prática: conheça algumas possibilidades!

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Principais gastos de energia na indústria do plástico

Para traçar uma estratégia eficiente, é crucial mapear onde a energia é consumida. Na transformação de polímeros, o desperdício energético é um gargalo que drena a rentabilidade.

Gargalos no processo produtivo

Os processos de transformação, como injeção, extrusão e sopro, são intensivos em energia. O consumo divide-se majoritariamente em duas frentes:

Tipo de Consumo Descrição
Térmica Aquecimento de canhões e moldes, geralmente feito por resistências elétricas com baixa eficiência ou até mesmo pela queima direta de gás para atingir as temperaturas necessárias no processo.
Mecânica Energia utilizada em motores elétricos responsáveis por movimentar roscas, compressores e sistemas hidráulicos que atuam no funcionamento das máquinas.

A falta de isolamento térmico adequado e o uso de motores antigos são os principais vilões que elevam o custo operacional sem agregar valor ao produto final.

Métricas essenciais e KPIs

Não se gerencia o que não se mede. A métrica de ouro para o setor é a Intensidade Energética, calculada em kWh por quilograma (kWh/kg) de resina processada.

É fundamental segmentar essa medição, pois diferentes materiais demandam energias distintas. Processar PET, por exemplo, exige temperaturas e pressões diferentes do PE ou PP. Ter esse dado granular permite identificar exatamente como reduzir a pegada de carbono na fabricação de embalagens plásticas de forma cirúrgica.

 Transição energética na prática: conheça algumas possibilidades!

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Soluções práticas para a descarbonização na indústria do plástica

Existem caminhos tecnologicamente viáveis para reduzir as emissões de Escopo 1 e 2 dentro das plantas industriais.

Eletrificação e fontes renováveis

Uma das tendências mais fortes é a eletrificação de processos térmicos, substituindo caldeiras a gás por e-boilers e bombas de calor industriais. Simultaneamente, deve-se migrar a fonte de eletricidade.

O investimento em painéis solares para indústrias de transformação de polímeros ou a migração para o Mercado Livre de Energia (ACL) com certificação de fonte renovável (I-REC) são estratégias consolidadas.

Marcos Izumida destaca a importância da diversificação: “Isso passa pela opção de escolha de fontes de geração renováveis, mas também pelos processos de eficiência energética”.

Ele lembra que o Brasil é privilegiado: “Temos a biomassa, o biogás e no futuro poderemos contar com o hidrogênio verde para armazenamento e regulação dos fluxos de energia no nosso sistema”.

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O papel do hidrogênio verde e derivados

Para processos de altíssima temperatura, onde a eletrificação é complexa, o Hidrogênio Verde (H2V) surge como o combustível do futuro, substituindo o gás natural.

No comparativo uso de hidrogênio verde vs. gás natural em fornos da petroquímica, o H2V elimina as emissões de CO2 na queima.

“O hidrogênio verde produzido a partir de fontes renováveis poderá no futuro substituir e descarbonizar todas estas grandes indústrias, basta que tenhamos incentivos e busca incessante para melhorias e escalabilidade”, opina Izumida.

Captura de carbono (CCUS)

Para as emissões que não podem ser evitadas via eletrificação ou troca de combustível, as tecnologias de Captura, Utilização e Armazenamento de Carbono (CCUS) aparecem como solução final. Elas capturam o CO2 na chaminé, impedindo que ele chegue à atmosfera, permitindo sua reinserção na cadeia produtiva.

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Aplicações da transição energética na indústria do plástico

Além da troca da fonte de energia, a transição passa obrigatoriamente pela eficiência operacional dentro da fábrica.

Otimização de chão de fábrica

A eficiência energética atua na redução da demanda. Isso inclui a instalação de inversores de frequência em motores, sistemas de recuperação de calor (heat recovery) e automação.

“Esses processos evitam o consumo de energia em determinadas atividades; a automatização de processos, o uso menos intensivo de determinados materiais, embalagens e transportes também evitam o consumo excessivo de energia”, destaca Izumida.

Pequenos ajustes, como o controle preciso de temperatura, evitam desperdícios massivos.

Inovação em feedstocks e reciclagem

A economia circular é uma ferramenta de eficiência energética. As tecnologias de reciclagem química com baixo consumo energético, como a pirólise otimizada, permitem transformar resíduos plásticos em matéria-prima com uma pegada de carbono inferior à da resina virgem de origem fóssil.

Além disso, o uso de bioplásticos e polímeros de fontes renováveis atua como sumidouro de carbono, complementando a estratégia de descarbonização da planta.

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Custos e investimento da transição energética na indústria plástica

Muitos gestores hesitam diante do custo inicial, mas a análise financeira moderna comprova o retorno.

Análise de TCO (Custo Total de Propriedade)

Ao calcular o TCO, percebe-se que o CAPEX (investimento em novos equipamentos mais eficientes) é rapidamente pago pela redução do OPEX (custo operacional com energia e manutenção).

Para viabilizar essa troca, existem subsídios e linhas de crédito para eficiência energética no setor plástico brasileiro, como os Green Bonds e programas específicos do BNDES voltados para a indústria 4.0 e sustentabilidade.

Roteiro de implementação

A transição não acontece do dia para a noite. Um roteiro seguro envolve:

Etapa do Roteiro Descrição
Diagnóstico Energético Mapeamento detalhado do consumo atual, identificando onde e como a energia é utilizada na fábrica.
Eficiência Implementação de melhorias para reduzir desperdícios, otimizar máquinas, ajustar parâmetros e modernizar equipamentos.
Migração Adoção de fontes renováveis, sistemas de autoprodução (como solar) e contratos de energia limpa.

“Existem processos que são mais complicados, caros e difíceis de serem substituídos. Mas existem outros que são fáceis e acessíveis, e é por estes que temos que iniciar”, aconselha Marcos Izumida, sugerindo pragmatismo na implementação.

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O futuro da indústria do plástico está na transição energética

As aplicações da transição energética na indústria do plástico representam a união entre responsabilidade ambiental e inteligência de mercado. Empresas que lideram esse movimento garantem menores custos, maior valor de marca e resiliência a crises climáticas e energéticas.

Como aponta Izumida, “com a massificação e popularização da autoprodução, os ganhos de escala gradativamente vão passar a atingir maiores fatias do mercado”, democratizando o acesso à energia limpa. O momento de agir é agora.

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