Conhecida por sua resistência a desgaste, estabilidade térmica e química, amortecimento mecânico, deslizamento e baixa densidade, a poliamida é um plástico de engenharia cada vez mais presente na fabricação de peças e artefatos automotivos, bens de consumo, eletroeletrônicos e outras indústrias.
Esse polímero, porém, enfrenta alguns desafios na sua reciclagem, como contaminação, variedade de tipos, resistência à degradação, custos de coleta e transporte, tecnologia especializada e viabilidade econômica.
Segundo Renata Piffer Peres, consultora de Sustentabilidade BASF, a reciclagem mecânica de poliamidas 6 e 66 exige atenção especial à qualidade e à rastreabilidade da matéria-prima.
“Para aplicações técnicas, é fundamental trabalhar com fluxos de resíduos homogêneos, corretamente separados e identificados, de forma a preservar propriedades mecânicas, térmicas e de processamento”, diz.
Outro desafio, aponta a consultora, é garantir consistência lote a lote, requisito essencial para setores como o automotivo e industrial.
Reciclagem da poliamida
Para responder a esses desafios, a área de Materiais de Performance da BASF criou o CirculAí, um programa que conecta clientes e parceiros para viabilizar o reaproveitamento de refugos industriais de poliamida 6 e 66.
Por meio desse programa, resíduos gerados em processos produtivos são coletados, processados e transformados em novos materiais, que retornam à cadeia em aplicações industriais.
O CirculAí acaba de completar cinco anos e, de acordo com a fabricante, os resultados são expressivos:
- Quase 200 toneladas de resíduos de poliamida reciclados no período;
- Aproximadamente mil toneladas de produtos com conteúdo reciclado reinseridos na cadeia produtiva;
- Emissão de aproximadamente 1,22 quilotoneladas de CO₂ equivalente evitada;
- 52 empresas abordadas ou interessadas em participar.
“O CirculAí trabalha com resíduos pós-industriais (PIR), cuja origem e composição são conhecidas e controladas, permitindo maior estabilidade do material reciclado e sua utilização em aplicações de maior valor agregado”, completa Renata.
Como funciona o CirculAí
Para fazer parte do CirculAí, o parceiro passa por uma fase de qualificação e treinamento e, mediante aprovação, é integrado ao programa.
A BASF recolhe exclusivamente as sobras de poliamida — PA 6 e PA 66, com ou sem carga — embaladas em big bags ou sacos de 25 quilos.
A fabricante, então, realiza a compra do refugo industrial e disponibiliza o transporte para retirada, que estabelece limite mínimo de uma tonelada.
Renata aponta que a logística é um fator importante em qualquer iniciativa de economia circular, especialmente em um país com dimensões continentais como o Brasil.
Por isso, o CirculAí foi estruturado para conectar diferentes etapas da cadeia produtiva e oferecer suporte também na coleta e no transporte dos materiais, e, desde sua criação, desenvolveu uma rede de parceiros e processos que permitem viabilizar a retirada e o reaproveitamento dos resíduos de forma eficiente.
“O foco do programa é justamente criar condições para que materiais que poderiam ser descartados retornem à cadeia produtiva com rastreabilidade e qualidade adequadas.”
Poliamidas com conteúdo reciclado
A partir destes resíduos, a BASF desenvolveu um portfólio de poliamidas com conteúdo reciclado para moldagem por injeção e extrusão, o Ultramid.
O portfólio é dividido em duas linhas, com aplicações variadas:
Ultramid A RC (PA 66):
- Móveis, componentes de base de cadeiras
- Peças automotivas estruturais
- Componentes de sistema de ventilação
- Componentes de eletrodomésticos
- Componentes de máquinas
- Peças de Jardinagem
Ultramid B RC (PA 6):
- Componentes do sistema de arrefecimento (defletor do veículo)
- Filtros automotivos de combustível
- Peças estruturais de cadeiras
- Conectores elétricos (não automotivos)
- Caixas de componentes elétricos
- Válvulas industriais
A fabricante destaca que esses materiais não foram desenvolvidos para peças que tenham contato com alimentos, água potável, brinquedos, cosméticos e aplicações médicas.
Vantagens competitivas
Para Renata, a proposta de valor da linha Ultramid RC vai além de uma comparação direta de preço com materiais virgens.
O principal diferencial, ressalta, está em combinar desempenho técnico, confiabilidade de fornecimento e conteúdo reciclado para atender às crescentes demandas de circularidade da indústria.
Assim, a competitividade econômica em relação à resina virgem pode variar de acordo com a aplicação, especificação técnica, volume e condições de mercado.
“O que podemos afirmar é que o portfólio foi desenvolvido para oferecer uma alternativa industrialmente viável para clientes que buscam incorporar conteúdo reciclado sem abrir mão da performance exigida em aplicações técnicas.”
Além disso, a BASF lançou recentemente uma nova geração de poliamida virgem, o Ultramid A3S HP UM, que oferece maior eficiência operacional e redução do consumo de energia durante o processo de transformação.
Foco em resíduo pós-industrial
Vale lembrar que o CirculAí opera no reaproveitamento de resíduo pós-industrial (PIR) de poliamida 6 e 66 — ou seja, a resina obtida a partir do material já utilizado na linha de produção de uma indústria —, e não no pós-consumo (PCR).
“Essa escolha permite garantir rastreabilidade, estabilidade de propriedades e disponibilidade de matéria-prima para aplicações técnicas”, explica Renata.
De acordo com o mais recente estudo de Índice de Reciclagem Mecânica elaborado pela MaxiQuim e Movimento Plástico Transforma, em 2025 foram produzidas 352 mil toneladas de resina reciclada de origem industrial no Brasil. A título de comparação, o PCR gerou 1,064 milhão de toneladas.
A consultora adianta que a BASF está avançando no desenvolvimento de grades com conteúdo PCR. Globalmente, a empresa investe também em soluções relacionadas à circularidade de resíduos pós-consumo, como o loopamid, uma tecnologia desenvolvida para reciclagem de poliamida proveniente de resíduos têxteis pós-consumo e pós-industriais.
Como sua indústria lida com a reciclagem do resíduo pós-industrial de poliamida?
Sobre circularidade, descubra o PPWR, o novo regulamento europeu para embalagens, e seus impactos para a indústria de plásticos.