O bagaço excedente da produção de cerveja pode ser transformado em bioplástico e aplicado em embalagens. É o que mostra o projeto BioSupPack, realizado em parceria entre 18 organizações da Europa sob coordenação do AIMPLAS – Instituto Tecnológico del Plástico (Espanha).
Em cinco anos de pesquisa, o resíduo industrial deu origem aos materiais PHA e PHB (polihidroxialcanoatos), bioplástico de alto valor como material para embalagens rígidas, aplicável para alimentos e bebidas e outros setores.
Transformando resíduos de cervejarias em bioplástico
Rosa González Leyba, coordenadora de projeto do AIMPLAS, comenta: “O BioSupPack demonstrou que podemos criar uma verdadeira economia circular transformando resíduos de cervejarias em materiais valiosos para embalagens e reciclando esses resíduos de embalagem através de tecnologias inovadoras como a reciclagem enzimática. Nosso consórcio conseguiu escalar processos inovadores de biorrefinaria e desenvolver materiais biobased para embalagens rígidas para aplicações alimentares e não alimentares, obtendo protótipos de embalagem muito próximos aos produtos atualmente disponíveis no mercado”.
O projeto, financiado com 7,6 milhões de euros pela Circular Bio-based Europe Joint Undertaking (CBE JU), desenvolveu e validou seis inovações-chave que abordam os principais desafios do setor.
6 inovações para a indústria de embalagens
O projeto alcançou resultados em escala demonstrativa e em ambientes operacionais reais, desenvolvendo e validando inovações que respondem aos principais desafios da indústria.
1. Processo de biorrefinaria para produção de PHB
A primeira grande inovação consiste em um bioprocesso escalável que converte bagaço de grãos das cervejarias em PHB de alta pureza através de pré-tratamento por plasma e fermentação microbiana.
Esta tecnologia transforma o volume de resíduos de baixo valor em um biopolímero funcional, criando conexão industrial entre cervejarias e produtores de bioplásticos.
2. Revestimentos à base de PHA
O BioSupPack desenvolveu revestimentos plastisol de PHA que são 99% biobased e totalmente biodegradáveis.
Estes revestimentos podem ser aplicados em papelão como alternativas aos revestimentos de PE, bem como em têxteis como substitutos do PVC. A inovação está protegida por patente da Centexbel e pronta para licenciamento a fabricantes de revestimentos.
3. Embalagens compostáveis à base de fibras
Foram criadas embalagens compostáveis industrialmente, à base de fibras, com propriedades de barreira comparáveis aos plásticos de origem fóssil. As aplicações incluem copos de sorvete e bandejas. Esta solução permite que as empresas atinjam suas metas de sustentabilidade oferecendo opções duplas de fim de vida.
4. Formulações de PHB para embalagens rígidas
A SABIOMATERIALS desenvolveu materiais à base de PHB otimizados para aplicações em embalagens rígidas. Os materiais são produzidos a partir de resíduos renováveis, sendo totalmente biodegradáveis, e recicláveis tanto de forma mecânica quanto enzimática.
Também foram especificamente formulados para melhor processabilidade por moldagem por sopro e injeção. A inovação alcançou o nível de maturidade tecnológica para produção em escala industrial.
5. Embalagens rígidas para diferentes setores
O ILAB desenvolveu garrafas para molhos e produtos de cuidados pessoais, enquanto o AIMPLAS produziu um display de garrafas de cerveja para o setor de varejo, demonstrando a versatilidade das aplicações do bioplástico desenvolvido.
6. Protótipo de triagem e reciclagem enzimática
O protótipo de triagem desenvolvido pela IRIS permite a recuperação dos novos resíduos de embalagem para posterior reciclagem enzimática, que se mostrou um fim de vida eficaz para esses materiais de embalagem, devido ao desenvolvimento de novas enzimas seletivas.
Regulamentação europeia de embalagens
As inovações do BioSupPack abordam diretamente a transformação da indústria de embalagens impulsionada pela Regulamentação de Embalagens e Resíduos de Embalagens da UE (PPWR).
Com a exigência de que todas as embalagens sejam recicláveis até 2030, e as crescentes demandas de sustentabilidade por parte de consumidores e reguladores, os resultados do projeto fornecem caminhos para a indústria fazer a transição de embalagens baseadas em fontes fósseis para soluções biobased e circulares.
As tecnologias desenvolvidas podem ser integradas à infraestrutura de fabricação já existente, reduzindo barreiras técnicas e econômicas para adoção.
Relevância e impacto para o mercado
O projeto fornece evidências alinhadas às políticas europeias, incluindo o Pacto Verde, a Estratégia de Bioeconomia e o Clean Industrial Deal.
Ao demonstrar que bioplásticos de alta performance podem ser produzidos em escala a partir de resíduos industriais, o BioSupPack apoia a resiliência industrial, a autonomia de recursos e os objetivos climáticos, ao mesmo tempo em que incentiva novas cadeias de valor e oportunidades econômicas na bioeconomia circular.
Os resultados alcançados pelo BioSupPack estão agora disponíveis para adoção por stakeholders da indústria, incluindo produtores de biopolímeros, biorrefinarias, fabricantes de embalagens e proprietários de marcas (brand owners) nos setores de alimentos, cosméticos e bens de consumo.
Encontre mais informações no site oficial do BioSupPack.