O II Fórum de Economia Circular encerrou sua segunda edição em São Paulo ampliando a articulação entre especialistas, empresas, governos e organismos internacionais da América do Sul em torno da agenda de resíduo zero (zero waste) e da economia circular.

Em um cenário em que apenas 6,8% dos materiais utilizados no mundo retornam à cadeia produtiva e a taxa brasileira de reciclagem gira em torno de 1,5%, um dos principais desdobramentos do encontro foi a formalização da parceria entre o Movimento Circular e a Zero Waste Foundation, instituição turca que lidera mundialmente essa pauta e que cria uma ponte para as discussões que antecedem a COP31.

Pela primeira vez, a agenda de resíduo zero integrará o núcleo das discussões da COP31, que será realizada entre os dias 9 e 20 de novembro, em Antalya, na Turquia. A parceria permitirá ampliar a conexão entre representantes do Brasil e América do Sul e a agenda internacional de economia circular, contribuindo para a construção de propostas e discussões que seguirão sendo desenvolvidas nos próximos meses, no período que antecede a conferência.

Metas de economia circular em pauta

Durante o II Fórum de Economia Circular, foram divulgadas pela primeira vez as metas definidas conjuntamente pela COP31 e pelo Conselho Consultivo de Personalidades Eminentes sobre Lixo Zero da Secretaria-Geral da ONU, que deverão orientar os debates internacionais sobre economia circular até 2035. São elas:

  • elevar a participação da eletricidade como fonte de energia limpa de cerca de 20% para 35%;
  • reduzir pela metade o crescimento da geração global de resíduos;
  • e ampliar a taxa de utilização de materiais circulares para pelo menos 15%.

“A parceria com a Zero Waste Foundation cria uma ponte entre as boas práticas desenvolvidas na América do Sul e a construção das propostas que podem ser apresentadas na COP31. Segundo os dados oficiais, 45% do desafio climático passa pela economia circular, enquanto os outros 55% dependem da transição energética”, afirma Vinicius Saraceni, diretor executivo do Movimento Circular.

Para Carlos Silva Filho, único brasileiro integrante do Conselho Consultivo de Personalidades Eminentes sobre Lixo Zero da Secretaria-Geral da ONU, a inclusão definitiva do tema representa uma mudança histórica na agenda climática internacional.

“Pela primeira vez teremos uma conferência do clima abordando esse tema na pauta principal. Os estudos já demonstram de forma concreta que ações de desperdício zero e economia circular são capazes de evitar e mitigar emissões de gases de efeito estufa, contribuindo diretamente para o objetivo de manter o aquecimento global abaixo de 1,5 grau.”

A segunda edição do Fórum de Economia Circular reuniu cerca de 50 lideranças nacionais e internacionais entre representantes do setor público, empresas, academia e organismos multilaterais. Organizado pelo Movimento Circular, o encontro consolidou o tema como um dos principais eixos da São Paulo Climate Week e ampliou o diálogo e a articulação entre diferentes setores em torno das discussões que antecedem a COP31.

“A discussão sobre economia circular já superou a fase do diagnóstico e entrou definitivamente na agenda da implementação. O Fórum permitiu consolidar propostas, compartilhar experiências e fortalecer uma articulação internacional que continuará até a COP31”, afirma Saraceni.

Economia circular ganha protagonismo internacional

O peso dessa agenda se explica pelos números brasileiros e mundiais de reaproveitamento de alimentos e resíduos sólidos. No mundo, apenas 6,8% de tudo o que é produzido pelas indústrias retorna à cadeia produtiva, o que representa um impacto estimado em 25,4 trilhões de euros (cerca de R$ 148 trilhões), aproximadamente um terço do PIB mundial. No Brasil, o cenário é ainda mais desafiador: a taxa de reciclagem gira em torno de 1,5%.

O reaproveitamento de materiais está diretamente ligado ao enfrentamento das mudanças climáticas. Segundo estudos internacionalmente reconhecidos, cerca de 45% do esforço necessário para reduzir as emissões globais de gases de efeito estufa depende da adoção de práticas de economia circular.

“Ou o mundo substitui a economia linear, baseada no desperdício e na extração contínua de recursos naturais, por uma economia circular e regenerativa, ou continuaremos convivendo com eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes”, afirma Saraceni.

Por que a economia circular precisa estar no centro da agenda climática

A transição para fontes de energia limpa responde por aproximadamente 55% da redução necessária das emissões globais de gases de efeito estufa. Os outros 45% dependem da forma como o mundo produz, consome e descarta produtos e alimentos. É o que demonstra o estudo Completing the Picture, da Ellen MacArthur Foundation.

O dado mais recente reforça essa urgência. Segundo o relatório Global Resources Outlook 2024, do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) e do International Resource Panel, a extração e o processamento de materiais já respondem por mais de 55% das emissões globais.

“A transição energética resolve pouco mais da metade do problema. A outra metade está na forma como produzimos, utilizamos e descartamos materiais. É exatamente aí que a economia circular atua, e é por isso que ela precisa ocupar definitivamente o centro da agenda climática”, afirma Saraceni.

Fórum amplia articulação no caminho até a COP31

A segunda edição do Fórum de Economia Circular reuniu mais de mil lideranças e tomadores de decisão ao longo de sua programação, com cerca de 50 vozes no palco durante os dois dias de painéis. Ao todo, foram mais de 30 horas de conteúdo, experiências e conexões.

Realizado pelo Movimento Circular, o Fórum foi um evento paralelo oficial do World Circular Economy Forum (WCEF), principal referência internacional em economia circular, e integrou a programação da São Paulo Climate Week, consolidando-se como principal ponto de encontro do tema durante a semana do clima.

Durante três dias de programação, representantes do setor público, empresas, universidades, organismos internacionais e sociedade civil debateram políticas públicas, logística reversa, mobilidade circular, inovação, financiamento climático, consumo circular e novos modelos de negócios.

A articulação construída durante o Fórum terá continuidade nos próximos meses, ampliando o diálogo entre diferentes setores da América do Sul e sua conexão com a agenda internacional de resíduo zero no período que antecede a COP31.

Sobre o Movimento Circular

O Movimento Circular é um think tank brasileiro e a maior iniciativa aberta de educação em economia circular da América Latina. Reúne mais de 90 organizações — entre empresas, universidades, entidades da sociedade civil, especialistas e organismos parceiros — com o propósito de acelerar a transição para uma economia regenerativa, de baixo carbono e baseada no uso eficiente dos recursos naturais.

Por meio de programas de educação, produção de conhecimento, articulação institucional e promoção de eventos nacionais e internacionais, o Movimento Circular já impactou cerca de 7 milhões de pessoas, disseminando boas práticas e desenvolvendo projetos voltados ao aumento do reaproveitamento de materiais, à redução das emissões de gases de efeito estufa e à promoção de novos modelos de desenvolvimento sustentável.