Todos os anos são produzidas no mundo mais de 400 milhões de toneladas de plástico, e menos de 10 % são recicladas de forma efetiva, segundo dados compartilhados por AIMPLAS em um webinar recente com Tecnología del Plástico, o veículo especializado da indústria com mais de 40 anos de experiência na América Hispânica.

“A sustentabilidade deixou de ser um diferencial de mercado para se tornar uma obrigatoriedade regulatória”, explicou no encontro Ana Vasconcelos, especialista em biotecnologia da AIMPLAS: “os países avançam em velocidades distintas, mas todos caminham rumo a modelos mais restritivos”.

Colômbia, Chile e Brasil já contam com marcos de Responsabilidade Estendida do Produtor (REP) para embalagens, com níveis de execução muito distintos entre si, enquanto o México estreia sua própria Lei Geral de Economia Circular e economias como a peruana, a equatoriana e a argentina seguem caminhos próprios, entre o investimento privado, a inovação universitária e os sinais de alerta.

A mensagem de fundo, segundo os especialistas consultados por esta revista, é a mesma em toda a região: a lei está chegando antes que a infraestrutura. “A chave para a indústria não é reagir quando a legislação chega, mas se antecipar desde o design, o P&D e a validação técnica”, apontou Vasconcelos.

Estes são os números, país por país, que marcam o pulso da região.

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México: como chegou a reciclar 64 % do seu PET

Em 2024, o México coletou 571.981 toneladas de garrafas de PET, a cifra mais alta em doze anos e equivalente a uma taxa de reciclagem de 64 % —mais do que o dobro dos Estados Unidos—. Não foi um salto repentino: em 2012 a taxa já rondava os 58 %, caiu para 50 % em 2015 e, desde então, subiu de forma sustentada até os 64 % atuais, segundo o histórico de coleta que a ECOCE compartilha com a Tecnología del Plástico.

Por trás desse número há quase quatro décadas de trabalho de Santiago García, coordenador do Comitê de Recicladores da ECOCE, que viu a primeira planta recicladora de PET do país quebrar no final dos anos 1990 por falta de abastecimento. “Isso indicou que o importante era dar valor ao resíduo”, resume García. A lição ficou gravada no modelo que o México construiu depois: criar oferta antes de esperar que a demanda aparecesse sozinha.

Essa foi exatamente a aposta quando a ECOCE nasceu em 2002, após a Lei Geral de Resíduos: os engarrafadores decidiram subsidiar o preço pago ao catador. “Vamos subsidiar o preço ao catador, e nosso orçamento no primeiro ano é de 20 milhões de dólares”, lembra García que disseram as empresas de refrigerantes ao governo. O subsídio deixou de ser necessário quando o mercado chinês de PET reciclado decolou e absorveu a oferta por peso próprio.

O outro pilar foi educativo: a ECOCE desenvolveu programas em cerca de 6.000 escolas do país, onde os estudantes trocavam garrafas coletadas por material didático. “Trezentos alunos por escola, seis mil escolas, vinte anos: vários milhões de estudantes foram expostos a isso”, calcula García. Esse trabalho de base, diz ele, é uma das razões pelas quais o PET ficou de fora das proibições mexicanas aos plásticos de uso único.

O resultado é a Petstar, hoje a maior planta recicladora de PET grau alimentício do mundo e principal fornecedora dos Estados Unidos —a Associação de Recicladores de Plásticos americana tem previsão de visitá-la em setembro—. “Não é só a maior, é a melhor. Já a visitei com estrangeiros e eles ficam maravilhados”, diz García.

A liderança mexicana não se limita ao PET: segundo o Anuário Estatístico 2025 da ANIPAC, a reciclagem mecânica representa 80 % da capacidade instalada mundial para PET, polietilenos e polipropileno, e o México lidera essa capacidade em PET e também se destaca em polietilenos. O 3º Estudo Quantitativo da Indústria de Reciclagem de Plásticos no México projeta 1.529.678 toneladas de material reciclado por ano no país, com o PET como a fração mais representativa (39,1 %).

Mas o crescimento não está isento de riscos. A China instalou plantas massivas de resina virgem a preços muito abaixo do mercado e, embora não tenham sido registradas falências no México, várias recicladoras suspenderam planos de ampliação. “Quanto mais integrado você conseguir estar, mais protegido você está. Quem está isolado é mais vulnerável”, adverte García.

O próximo teste é regulatório: a Lei Geral de Economia Circular (LGEC), em vigor desde 20 de janeiro de 2026, exigirá conteúdo reciclado em setores que até agora não tinham regulação, como óleo comestível, produtos de limpeza e molhos. “Vai ajudar por vários motivos. Os recicladores vão poder medir melhor a demanda, e isso vai dar estabilidade ao mercado”, afirma García, embora advirta sobre um obstáculo pendente: ainda não existe um método físico-químico confiável para verificar o conteúdo reciclado, e o sistema depende de comprovantes documentais.

Jorge Calderas, especialista em Economia Circular e Zero Waste Advisor, foi mais crítico: “A lei carece de critérios verificáveis em temas como limites, testes e diretrizes setoriais”, disse a esta revista pouco depois de sua publicação.

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Colômbia: o desafio de duplicar a taxa de reciclagem até 2030

“Temos uma regulação que obriga ao cumprimento dessas metas e todos os objetivos foram cumpridos no ano passado. As metas continuam crescendo e nos preparamos para cumprir os desafios de economia circular a partir deste ano e daqui até 2030”, afirma Daniel Mitchell, presidente da Acoplásticos, entidade que reúne 160 empresas —entre 85 % e 90 % do mercado das cadeias produtivas do plástico na Colômbia.

Segundo Mitchell, nos últimos quatro anos a indústria investiu entre US$ 160 e US$ 170 milhões para ampliar sua capacidade de reciclagem, aproximando-se das 500.000 toneladas. Isso coloca o país em uma taxa de reciclagem de plástico entre 20% e 25%, com uma capacidade que começa a se aproximar de 30%. “No caso das garrafas de PET, obrigatoriamente devem ter certos percentuais de matéria-prima reciclada, isso está sendo cumprido”, acrescenta.

O uso de sacolas plásticas no setor formal, por sua vez, caiu 58% em um ano e meio, e a Postobón sozinha reaproveitou mais de 170.000 toneladas de embalagens em 2025. O desafio pendente, segundo Mitchell, é a reciclagem de embalagens flexíveis —salgadinhos, papel higiênico, molhos, biscoitos, queijos, leite— “um dos maiores desafios que temos”.

Esse olhar do setor industrial convive com uma realidade mais granular no serviço público de limpeza urbana. A Cempre Colômbia, por meio de seu plano Red Reciclo, geriu mais de 210.000 toneladas de resíduos aproveitáveis durante 2025, articulando 38 empresas, 20 iniciativas coletivas e mais de 6.200 catadores em 75 municípios; desde 2020 acumula um histórico de 1,3 milhão de toneladas. Mas a Superintendência de Serviços Públicos Domiciliares situa a taxa nacional de aproveitamento —de todos os materiais recicláveis dentro do serviço de limpeza urbana— em apenas 17%, com Bogotá muito acima da média (42,9%).

Do total de embalagens plásticas colocadas a cada ano no mercado colombiano (700.664 toneladas), apenas cerca de 3% consegue fechar completamente o ciclo como matéria-prima reciclada em novos produtos.

“Por trás de cada garrafa, cada papelão e cada material recuperado há uma cadeia produtiva que, ao longo de anos, tem contribuído para o cuidado com o meio ambiente e o sustento de milhares de famílias.”

— Laura Reyes, diretora executiva da Cempre Colômbia

Essa cadeia depende de mais de 74.000 catadores registrados, que coletam em média 84,3 quilos de materiais por dia. Um estudo da Cempre de 2025 constatou que seus rendimentos eram 35 % inferiores ao salário mínimo legal em Bogotá e até 48% inferiores em Barranquilla. “A economia circular só é possível quando existe corresponsabilidade”, insiste Reyes.

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Chile: a Lei REP mais consolidada da região, com uma indústria que cresce mas não decola de vez

O Chile é, segundo o consenso da indústria, o país com a arquitetura regulatória mais madura da região graças à Lei REP 20.920, que desde 2023 estabelece metas graduais de coleta e valorização de embalagens, com exigências diferenciadas para resíduos domiciliares e não domiciliares até a próxima década.

O 4º Estudo sobre Reciclagem e Valorização de Plásticos no Chile, elaborado pela ASIPLA, confirma que a produção de resinas plásticas recicladas cresceu com força: passou de 106.870 toneladas em 2022 para 127.177 toneladas em 2024, uma alta de 19%. O polietileno (PE) concentra 62% dessa produção, seguido do polipropileno (PP, 20%) e do PET (14%).

A capacidade instalada da indústria recicladora também disparou: de 154.648 toneladas em 2022 para 201.547 toneladas em 2024 (+30%), quase o dobro do que em 2020. É aí que aparece o dado que melhor resume a tensão da região entre regulação e infraestrutura real: no caso do PET, a capacidade instalada para produzir flakes e pellets chegou a 45.360 toneladas em 2024, mas a produção efetiva foi de apenas 18.116 toneladas, ou seja, a indústria chilena de reciclagem de PET está utilizando somente cerca de 40% de sua capacidade instalada.

A taxa de valorização —o percentual de resina reciclada em relação ao consumo aparente dessa mesma resina— confirma a lacuna: PE e PP alcançam 13,1%, enquanto a do PET caiu de 12,4% em 2022 para 9,7% em 2024, embora a capacidade instalada para esse material tenha quase dobrado no mesmo período.

Parte da explicação está nas importações: o Chile trouxe 95.223 toneladas de PET virgem em 2024 frente a apenas 6.739 toneladas de rPET importado.

A mensagem para a indústria é clara: não basta instalar mais capacidade de lavagem, moagem e peletização se a coleta seletiva e a captação de material não crescerem no mesmo ritmo.

Brasil: a reciclagem mecânica volta a crescer, mas a lacuna regulatória segue aberta

Depois de um 2023 fraco, a indústria brasileira de reciclagem de plásticos voltou a crescer em 2024. Segundo o estudo de índices de reciclagem mecânica de plásticos pós-consumo da ABIPLAST, a produção de resina reciclada pós-consumo (PCR) chegou a 1,012 milhão de toneladas, 7,8% a mais que no ano anterior, sobre uma capacidade instalada de 2,43 milhões de toneladas.

O índice geral de reciclagem mecânica ficou em 21,0%, enquanto o índice específico para embalagens —a categoria de maior consumo de plástico— chegou a 24,4%, e o índice de recuperação, que também contempla outras formas de valorização, alcançou 28,7%. O setor faturou R$ 4 bilhões (+5,8% nominal) e gerou 20.043 empregos diretos, 7,7% a mais que em 2023.

“Em 2024, a indústria de reciclagem apresentou uma recuperação tímida após o desempenho fraco de 2023.

— Maurício Jaroski, diretor de Química Sustentável da MaxiQuim

Essa recuperação tímida não ocorreu no vácuo. Apesar dos avanços regulatórios e do crescente interesse pela circularidade, os últimos anos foram especialmente complexos para a indústria global de reciclagem: a sobreoferta petroquímica e o aumento da capacidade produtiva na Ásia levaram os preços das resinas virgens a níveis historicamente baixos, reduzindo a competitividade econômica dos materiais reciclados. O fenômeno afetou recicladores do mundo todo e provocou fechamentos de plantas e reduções de capacidade na Europa e nos Estados Unidos.

O Brasil não ficou alheio a essa realidade. Segundo Irineu Bueno Barbosa Junior, CEO da Cirklo —uma das maiores recicladoras independentes de PET do país—, durante boa parte de 2024 e o início do ano passado, muitas empresas desaceleraram seus planos de incorporação de conteúdo reciclado devido ao baixo custo da resina virgem. “Se não existe demanda para o material reciclado, não existe reciclagem”, afirmou o executivo à Tecnología del Plástico.

O panorama começou a mudar no final de 2025, com a aprovação de um decreto complementar à Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) que estabelece metas obrigatórias de conteúdo reciclado em novas embalagens plásticas: um mínimo de 22% a partir de 2026, percentual que aumentará gradualmente nos anos seguintes. Como resultado, diversas marcas começaram a desenvolver testes, homologações e registros regulatórios para aumentar o uso de rPET em suas embalagens.

A esse impulso normativo somou-se um fator inesperado: as tensões geopolíticas no Oriente Médio elevaram os preços do petróleo e, com eles, o custo das resinas virgens derivadas de matérias-primas fósseis.

Segundo Barbosa Junior, essa situação devolveu competitividade ao PET reciclado e acelerou projetos que haviam ficado em pausa durante meses. “Agora há uma vantagem econômica para utilizar reciclado”, afirma. O impacto foi imediato: entre fevereiro e maio, a demanda pela produção da Cirklo praticamente dobrou, impulsionada tanto por clientes que retomaram iniciativas de circularidade quanto por novas empresas interessadas em incorporar conteúdo reciclado em suas embalagens.

Para Barbosa Junior, a combinação entre regulação, compromissos corporativos de sustentabilidade e uma maior competitividade econômica do reciclado está criando um cenário mais favorável para a indústria brasileira do PET. No entanto, o principal desafio já não seria a capacidade instalada de reciclagem, mas garantir o suprimento de matéria-prima.

Vale distinguir aqui duas medições distintas: enquanto os índices da ABIPLAST citados acima abrangem o conjunto de resinas plásticas, o 13º Censo de Reciclagem de PET da ABIPET mede especificamente esse material e reporta que o Brasil reciclou 410.000 toneladas de PET pós-consumo em 2024 —equivalentes a mais de 13 bilhões de garrafas—, uma taxa de reciclagem de PET de 53%. Mesmo com esse número mais alto, a indústria operou com uma capacidade ociosa próxima de 23%, devido principalmente a limitações nos sistemas de coleta e classificação de resíduos.

Nesse contexto, fortalecer a recuperação de garrafas pós-consumo, ampliar a coleta seletiva e apoiar cooperativas e centros de classificação será tão importante para o Brasil quanto continuar investindo em novas tecnologias de reciclagem.

Equador e Argentina: entre o investimento, a inovação e os sinais de alerta

No Equador, a indústria plástica cresceu cerca de 10% em 2025 e projeta um desempenho semelhante em 2026, com 600 empresas, um valor de produção de US$ 2,1 bilhões e cerca de 19.000 empregos diretos. A Associação Equatoriana de Plásticos (ASEPLAS), que reúne cerca de 120 empresas, informa que o país consome entre 500.000 e 600.000 toneladas de plástico por ano e gera 627.000 toneladas de resíduos plásticos, enquanto a indústria investe entre US$ 20 e 30 milhões anuais em maquinário e melhorias produtivas —parte desse investimento, segundo a entidade, impulsionada pelo Plano Nacional de Redução de Resíduos Plásticos, que fixa uma meta de redução de 19 % até 2040.

Esse impulso rumo à sustentabilidade convive, no entanto, com uma forte pressão de custos. O preço da resina virgem escalou de forma progressiva —primeiro 20%, depois 35%, em seguida 60-70% e até 100% nos picos mais altos—, passando de cerca de US$ 1.100 por tonelada para uma faixa de US$ 2.100 a US$ 2.250 (com máximos próximos de US$ 2.600 durante a pandemia).

Boa parte dessa volatilidade recente se explica pelo conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã e seu impacto sobre o Estreito de Ormuz, que encareceu o transporte marítimo e reduziu a disponibilidade de navios. “As empresas estão em um processo de transformação rumo a uma maior sustentabilidade, principalmente por meio do uso de materiais reciclados”, afirma Arturo Sánchez Cedillo, presidente da ASEPLAS, que adverte que “o principal desafio da economia circular começa no consumidor e no descarte correto dos resíduos”. A incorporação de reciclado, acrescenta, “permite reduzir a matéria-prima virgem e avançar na redução da pegada de carbono”.

Em paralelo, pesquisadores da ESPOL desenvolveram ecopainéis fabricados com mais de 96% de conteúdo reciclado a partir de pneus e plástico pós-consumo —do programa SEGINUS, que já geriu 8,8 milhões de pneus desde 2018— com uma pegada de carbono 51,98% menor que a da madeira; mil desses painéis já foram instalados na Ilha Santay em 2025, como exemplo de que a inovação em economia circular também avança fora das grandes leis REP.

A Argentina, por sua vez, oferece o contraponto de alerta desta edição. Segundo o Índice de Reciclagem 2025 da Ecoplas, o volume de plástico recuperado caiu 11% na comparação anual, para 235.352 toneladas. A taxa de reciclagem de plásticos pós-consumo domésticos passou de 25,8% em 2024 para apenas 14,6% em 2025, e a participação do plástico reciclado sobre o consumo nacional caiu de 16,66 % para 12,44%. As causas, segundo a Ecoplas, combinam a queda do consumo interno, a volatilidade dos preços internacionais e a perda de poder aquisitivo das famílias por causa da inflação.

O que vem por aí: 2030 como o ano que muda tudo

A década rumo a 2030 será decisiva para a indústria do plástico na América Latina. As metas de conteúdo reciclado, os sistemas REP que se ajustam na Colômbia e no Chile, o regulamento pendente da Lei Geral de Economia Circular no México e os investimentos privados que chegam ao Peru convergem para um mesmo ponto: as empresas deverão demonstrar avanços concretos e mensuráveis em reciclabilidade, redução de resíduos e rastreabilidade, ou ficar de fora das cadeias de valor globais que já exigem esse padrão.

O desafio para 2026 e os anos seguintes não é legislar mais, mas executar melhor, e sustentar o que foi executado.