Como você já leu no Mundo do Plástico, o Decreto 12.688/2025, que estabelece o Sistema de Logística Reversa de Embalagens de Plástico no Brasil, estabelece metas de reciclagem e conteúdo reciclado que deverão ser comprovadas em julho do ano que vem. 

A nova legislação abrange toda a cadeia de valor do plástico, de fabricantes a consumidores, e demanda que os agentes promovam adequações técnicas, operacionais e estruturais.  

Na avaliação de Juliana Seidel, Líder do Eixo de Design de Embalagens da Rede pela Circularidade do Plástico, mais do que estabelecer percentuais, o decreto evidencia a complexidade da economia circular do plástico.  

“Para que uma embalagem seja recuperada e volte ao ciclo produtivo, é necessário que ela seja desenhada para ser reciclada e que depois exista uma cadeia capaz de coletar, separar, beneficiar, reciclar e comercializar esse material, com qualidade e rastreabilidade.” 

Rede pela Circularidade do Plástico 

É neste contexto que a Rede pela Circularidade do Plástico ganha relevância ao reunir, sob uma governança comum, diferentes elos da cadeia.   

Criada em 2018, a Rede é hoje a maior articulação brasileira dedicada à Economia Circular do Plástico e atua na identificação de gargalos e oportunidades em todas as áreas da cadeia do plástico, e para todos os tipos de embalagens plásticas.  

A Rede se organiza em eixos – Design de Embalagens, Logística e Infraestrutura, Políticas Públicas, Comunicação e Governança – para que as ações necessárias em cada uma das etapas possam ser alcançadas.  

Cada eixo, por sua vez, trabalha com grupos de trabalho, de modo que os temas possam avançar de maneira paralela e mais rápida. 

Embalagens flexíveis em destaque 

Fruto das discussões do grupo de trabalho de flexíveis, o projeto CirculaFlex foi criado em 2023 a partir do reconhecimento de que esse tipo de embalagem apresenta desafios específicos dentro da cadeia de reciclagem.  

“A iniciativa começa pela homologação de recicladores, para entender quais resíduos de embalagens flexíveis já são processados, os que poderiam ser incorporados e quais são os limites de aplicação de conteúdo reciclado”, explica Juliana.  

A partir daí, são conectadas cooperativas que estejam no raio de atuação desses recicladores e realizadas capacitações para separação, beneficiamento e comercialização dos materiais. 

O projeto atua também junto às cooperativas em ações de educação ambiental, buscando ampliar a quantidade de embalagens que chegam à cadeia de reciclagem. 

Segundo a Líder do Eixo de Design de Embalagens, o CirculaFlex já conta com 16 recicladores homologados (com quatro deles diretamente envolvidos no projeto), 18 organizações de catadores treinadas e mais de 420 catadores impactados.  

São cerca de 790 toneladas de embalagens flexíveis monitoradas desde o início do projeto com aproximadamente 121 toneladas de BOPP e 263 toneladas de PEBD comercializadas para reciclagem somente de janeiro a julho de 2026. 

“Dessa forma, o CirculaFlex não se limita à questão técnica da reciclagem. O objetivo é criar as condições para que os materiais efetivamente percorram o caminho entre o pós-consumo e a indústria recicladora, fortalecendo os fluxos que já existem e abrindo novas possibilidades comerciais para aqueles que ainda apresentam maior complexidade.” 

Decreto acelera agenda em construção 

Para Juliana, o Decreto 12.688/2025 reforça um trabalho que a Rede pela Circularidade do Plástico já desenvolve e que funciona como referência para as empresas que necessitam entender como adequar seu portfólio às exigências da nova legislação.  

No caso dos flexíveis, diz ela, o CirculaFlex trabalha justamente na construção e no fortalecimento das rotas de encaminhamento para a reciclagem.  

“O projeto aproxima recicladores e organizações de catadores, orienta sobre a triagem e a separação dos diferentes tipos de embalagens flexíveis e busca viabilizar caminhos para materiais que apresentam maior complexidade de reciclagem, como o BOPP.”  

Uma vez identificadas as possibilidades técnicas de reciclagem, é possível estruturar uma cadeia com oferta regular de material e conexão entre quem coleta e separa, e quem recicla. 

Como exemplo, Juliana cita a ferramenta Retorna, desenvolvida pela Rede, que contribui para que as empresas avaliem a reciclabilidade das embalagens, considerando as condições reais da cadeia brasileira, tanto técnicas quanto mercadológicas.  

“Isso é importante porque o próprio decreto determina que fabricantes considerem aspectos de economia circular do plástico, como reciclabilidade e durabilidade, já nas fases de concepção e produção das embalagens”, completa. 

Nesse sentido, ela considera que o impacto do Decreto 12.688/2025 é menos o surgimento de uma demanda nova e mais a aceleração de uma agenda que já estava em construção, fazendo com que mais empresas procurem as ferramentas desenvolvidas pela Rede.  

Assim, projetos como o CirculaFlex são importantes justamente porque ajudam a criar rotas para materiais mais complexos e a transformar aquilo que hoje é um desafio de recuperação em uma fonte de renda com potencial de indústria, desenvolvendo produtos e embalagens com conteúdo reciclado. 

Os desafios da reciclagem de embalagens flexíveis 

O mais recente estudo elaborado pela MaxiQuim, com números de 2024, atesta que “os resíduos provenientes de embalagens apresentaram uma pequena redução em sua participação, com destaque para a queda nas embalagens flexíveis”. Naquele ano, as embalagens flexíveis representaram 19,9% do volume total de resíduos consumidos na reciclagem.  

Para Juliana Seidel, o principal desafio para aumentar esse índice é fazer com que a embalagem flexível percorra todo o caminho entre o descarte e a reciclagem.  

“A dificuldade não está apenas na tecnologia de processamento. Ela começa na coleta e na triagem e passa pela capacidade de separar e estocar os resíduos, pela escala disponível, pela qualidade do material e, finalmente, pela existência de compradores para o reciclado”

No caso dos flexíveis, é preciso considerar, ainda, a grande diversidade de materiais e estruturas, o que interfere na triagem e na definição das rotas de reciclagem.  

“Não acreditamos que exista uma única resposta para ampliar a recuperação e a reciclagem dos flexíveis”, afirma a Líder. “É necessário trabalhar simultaneamente em diferentes pontos da cadeia: melhorar o design das embalagens para que sejam mais harmonizadas, e então melhorar a separação na origem, qualificar cooperativas e catadores, ampliar a capacidade dos recicladores, desenvolver rotas para materiais mais complexos e, principalmente, criar demanda para a resina reciclada”

O CirculaFlex atua nessa conexão:  

  • A homologação dos recicladores permite entender quais materiais já podem ser incorporados a cada processo; 
  • A aproximação com as organizações de catadores cria uma fonte mais estruturada de material; 
  • O treinamento melhora a separação, o beneficiamento e a comercialização;   
  • E as ações de educação ambiental ajudam a aumentar a quantidade de embalagens que efetivamente chegam à cadeia de reciclagem. 

Ampliar a reciclagem dos flexíveis, portanto, passa por uma mudança de lógica.  

“O material precisa ser visto como um recurso que tem valor e mercado, e não apenas como um resíduo difícil de administrar. Quando os diferentes elos conseguem trabalhar de forma conectada, fica mais viável dar escala aos fluxos que já existem e desenvolver novas rotas para aqueles que ainda apresentam maior complexidade.” 

Sua indústria fabrica embalagens flexíveis? Você já conhecia iniciativas que podem auxiliar na reciclagem, como o CirculaFlex?