Os plásticos na área da saúde são os grandes protagonistas da medicina moderna. Da simples seringa descartável aos complexos corações artificiais, os polímeros garantem a segurança sanitária e viabilizam tratamentos acessíveis.

Segundo o relatório da MarketsandMarkets, o setor de polímeros médicos deve manter um crescimento constante até 2030, impulsionado pelo envelhecimento da população e pela demanda por cirurgias minimamente invasivas.

No entanto, para atuar nesse segmento, não basta apenas moldar uma peça. É preciso entender como os materiais hospitalares são classificados e quais exigências técnicas garantem que um dispositivo não cause danos ao paciente.

Neste artigo, atualizamos tudo o que você precisa saber sobre polímeros médicos, desde as normas ISO para testes de toxicidade até as tendências de sustentabilidade.

Por que o plástico é indispensável na saúde?

A principal razão para o uso massivo de polímeros na medicina é a combinação única de versatilidade, custo-benefício e segurança biológica. Diferente do vidro ou do metal, os plásticos permitem a fabricação em massa de itens de uso único, que são essenciais para o controle de infecções hospitalares.

Além disso, a capacidade de serem moldados em geometrias complexas permite o desenvolvimento de dispositivos ergonômicos e leves. Seja em cateteres flexíveis ou em próteses rígidas, o plástico atua como uma barreira estéril entre o ambiente e o corpo humano, sendo fundamental para a segurança do paciente.

Ilustração demonstra a utilização do plástico para desenvolver próteses.

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Quais são os tipos de plásticos utilizados na área da saúde e suas aplicações?

A diversidade de resinas permite atender a diferentes requisitos mecânicos e químicos. Os materiais em unidades hospitalares geralmente se dividem entre commodities (uso geral) e plásticos de engenharia (alta performance).

Polímeros de grande volume

Os plásticos de commodities, como o PVC (Policloreto de Vinila), o Polipropileno (PP) e o Polietileno (PE), dominam o volume de aplicações devido ao baixo custo e facilidade de processamento. O PVC, por exemplo, é onipresente em bolsas de sangue e tubos flexíveis.

Um ponto crucial no uso deste material é saber como garantir a esterilidade de cateteres de PVC. Isso é feito através de formulações que resistem a processos como o Óxido de Etileno (EtO), mantendo a flexibilidade sem degradar o material. Já o PP e o PE são amplamente usados em seringas, frascos e embalagens de barreira estéril.

Ilustração demonstra o uso de materiaç para garantir a esterilidade de equipamentos médicos.

Plásticos de engenharia e alto desempenho

Para aplicações que exigem propriedades superiores, entram em cena materiais como o Policarbonato (PC), o Poliuretano (PU) e o PEEK.

As vantagens do policarbonato na fabricação de equipamentos de hemodiálise, por exemplo, são inegáveis: sua alta transparência permite a visualização do fluxo sanguíneo, enquanto sua resistência térmica suporta esterilizações rigorosas sem perder a estabilidade dimensional.

Já o PEEK (Poliéterétercetona) tem revolucionado a ortopedia, substituindo metais em implantes devido à sua radiotransparência (não interfere em Raio-X) e módulo de elasticidade semelhante ao osso.

“Além de desempenho mecânico adequado, os requisitos para essas aplicações são extremamente rigorosos no que diz respeito à limpeza, toxicidade e inércia química”, assinala Alexandre Farhan, técnico em plásticos e Diretor Executivo da Escola LF.

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Como assegurar a biocompatibilidade e segurança do paciente ao produzir plásticos para a área da saúde?

A biocompatibilidade é a capacidade de um material desempenhar sua função sem causar efeitos adversos no organismo. Para fabricantes, isso significa rigor total na escolha de aditivos e processos.

Normas de toxicidade e a ISO 10993

Para validar qualquer dispositivo, é obrigatório seguir as normas ISO para testes de toxicidade em plásticos utilizados em contato com medicamentos, especificamente a série ISO 10993.

Esta norma avalia riscos como a citotoxicidade e a lixiviação (leaching), que ocorre quando substâncias químicas migram do plástico para o corpo ou fluído medicamentoso. O controle de aditivos, plastificantes e metais pesados é vital para garantir a aprovação do produto.

Métodos de esterilização e resistência química

O material escolhido deve suportar o método de esterilização sem sofrer degradação, amarelamento ou perda de propriedades mecânicas. Abaixo, comparamos o comportamento dos principais polímeros:

Material Autoclave (Vapor) Radiação Gama Óxido de Etileno (EtO) Principais Aplicações
PVC Baixa Resistência Boa Excelente Bolsas de sangue, tubos
PP Boa Média (pode amarelar) Excelente Seringas, TNT hospitalar
Policarbonato (PC) Boa Média/Boa Boa Hemodiálise, conectores
PEEK Excelente Excelente Excelente Implantes espinhais

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Regulamentações da ANVISA e normas internacionais na produção de plásticos para a área da saúde

No Brasil, a ANVISA regula o setor com mão firme. A RDC Nº 665/2022 (que substituiu a RDC 16) estabelece as Boas Práticas de Fabricação de Produtos Médicos e Produtos para Diagnóstico de Uso In Vitro.

Ela exige que a empresa mantenha um sistema de gestão da qualidade robusto, garantindo a rastreabilidade completa desde a matéria-prima até o produto final.

Internacionalmente, diretrizes da OMS e a marcação CE (Europa) também exigem conformidade similar, focando na segurança do paciente e na eficácia clínica do dispositivo.

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Processamento e fabricação em ambientes controlados

A fabricação de dispositivos médicos exige ambientes livres de contaminação. O uso de Salas Limpas (Cleanrooms), classificadas segundo a norma ISO 14644 (geralmente Classe 7 ou 8), é mandatório para evitar partículas suspensas e contaminação biológica durante a injeção ou extrusão.

Além do ambiente, a certificação ISO 13485 é o padrão ouro para sistemas de gestão da qualidade neste setor, demonstrando que a empresa é capaz de fornecer dispositivos médicos de forma consistente.

Ilustração demonstra o processamento e fabricação em ambientes controlados

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Sustentabilidade e desafios do lixo hospitalar plástico

O setor enfrenta um dilema: como equilibrar a necessidade do descartável (segurança) com o volume de resíduos gerados? O impacto ambiental do descarte de plásticos hospitalares e soluções de reciclagem são pautas urgentes.

Embora resíduos infectantes devam ser incinerados ou autoclavados antes do descarte, uma grande parte das embalagens e materiais não contaminados pode entrar na logística reversa e reciclagem mecânica, transformando-se em novos produtos para setores menos críticos.

Inovação em materiais biodegradáveis

A tecnologia avança para mitigar esses impactos. O desenvolvimento de novos plásticos biodegradáveis para implantes absorvíveis (como PLA e PLGA) é uma tendência forte.

Esses materiais são projetados para se degradarem no corpo humano após cumprirem sua função, eliminando a necessidade de uma segunda cirurgia para retirada do implante e reduzindo o resíduo biológico.

“Neste momento é primordial a atuação da engenharia, com investimentos em inovações capazes de aumentar a vida útil do produto e reduzir drasticamente a quantidade de resíduos.”

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O futuro dos dispositivos médicos está no setor plástico

A intersecção entre medicina e engenharia de materiais continuará a se aprofundar. Tendências como a impressão 3D de próteses personalizadas e polímeros inteligentes que reagem a estímulos do corpo já são realidade.

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