A reciclagem mecânica é a forma mais comum de reaproveitar plástico no Brasil. Ela transforma resíduos em grânulos que voltam à indústria como matéria-prima, sem alterar a estrutura química do material.
Segundo o estudo Monitoramento dos Índices de Reciclagem Mecânica de Plásticos Pós-consumo no Brasil, feito pela consultoria MaxiQuim para o Movimento Plástico Transforma, iniciativa do PICPlast, parceria entre a Abiplast e a Braskem, o país produziu 1,06 milhão de toneladas de plástico pós-consumo reciclado (PCR) em 2025, alta de 5,1% sobre 2024. O índice de reciclagem mecânica do plástico, que compara essa produção com os 5 milhões de toneladas de resíduos plásticos gerados no ano, ficou em 21,3%.
O PET segue como a resina mais reciclada, com 39% de todo o PCR produzido, seguido por PEAD (21%), PP (18%) e PEBD/PELBD (15%). O setor também chegou a mais de 21 mil empregos diretos, o maior número da série histórica do estudo, iniciada em 2018.
Especialista do Movimento Circular em reciclagem de plástico e gerente de sustentabilidade para Embalagens e Especialidades Plásticas da Dow no Brasil, Giancarlo Montagnani lembra que a reciclagem do plástico começa no descarte correto, com a coleta seletiva. Por isso, o consumidor tem papel decisivo logo no início dessa cadeia.
“O processo de reciclagem do plástico depende da coleta adequada dos resíduos plásticos para que possam ser encaminhados aos centros de reciclagem.”
O que é a reciclagem mecânica?
A reciclagem mecânica é o processo mais comum e consolidado para reaproveitamento de plásticos. Ela consiste na transformação física dos resíduos, sem alterar sua estrutura química, e envolve etapas como separação, moagem, lavagem, secagem, extrusão e regranulação. O resultado são pellets que podem ser usados na fabricação de novos produtos.
Esse método é amplamente usado para termoplásticos, como PET, PEAD, PP e PS, e tem avançado com tecnologias como separação óptica por infravermelho (NIR), lavagem por atrito e controle automatizado de qualidade. Embora não seja indicado para plásticos muito contaminados ou de múltiplas camadas, ainda representa a base da economia circular para embalagens e produtos de consumo.
Além de reduzir o volume de resíduos descartados, o processo contribui para um menor consumo de matéria-prima virgem e de energia, e é considerado uma das rotas mais acessíveis e escaláveis para o reaproveitamento do plástico.
A diferença em relação às outras rotas está no tratamento do resíduo. Na reciclagem química, o plástico é quebrado em moléculas menores. Na reciclagem energética, ele é usado como combustível para gerar energia.
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Etapas do processo de reciclagem mecânica do plástico
Mas o que acontece depois que os resíduos descartados pelos consumidores são coletados? A pedido do Mundo do Plástico, Montagnani descreveu as etapas do processo de reciclagem mecânica do plástico. Confira:
1. Separação e triagem
Os plásticos são separados de outros materiais, como papel, vidro e metais, por meio de processos como triagem manual, separação magnética e flotação, entre outros. Nos centros de maior escala, sensores ópticos de infravermelho próximo (NIR) identificam cada tipo de plástico e reduzem a triagem manual. Veja como é feita a separação de resíduos.
2. Moagem
Os plásticos são triturados em pedaços menores para facilitar o processamento seguinte. Para isso, são usados trituradores ou moinhos, que variam conforme o tipo de plástico e o volume de material. Os mais comuns são os moinhos de facas, de martelo e de rolos. Saiba mais sobre a etapa de moagem.
3. Lavagem
Os pedaços moídos são lavados para remover sujeira, restos de alimentos, tinta e outras impurezas. Para isso, são usadas máquinas de limpeza de plástico, como lavadoras industriais com água e detergentes, além de peneiras para separar as impurezas maiores.
“Esse é um processo crucial para garantir a qualidade do plástico reciclado.”
4. Secagem
A remoção do excesso de umidade evita problemas no processamento seguinte. No Brasil, são usados secadores industriais com ar quente ou outros métodos de secagem. Veja os detalhes em etapas da reciclagem: lavagem e secagem.
5. Aglutinação
Filmes e materiais leves, como sacolas e embalagens flexíveis, costumam passar por um aglutinador antes da extrusão. O equipamento aquece, mistura e retira a umidade restante do material, que se compacta e ganha densidade aparente. Assim, a extrusora é alimentada de forma mais regular.
6. Extrusão e peletização
É a etapa final. O plástico limpo e seco é derretido e forçado através de uma matriz, para formar um novo produto ou ser transformado em grânulos (resina PCR) que serão usados na fabricação de novos produtos.
Esse processo é feito com extrusoras, como a de degasagem, que aquecem o plástico a altas temperaturas e o forçam através de uma matriz. Moldes ou cabeças de extrusão específicas para o formato desejado do produto final também são usados nessa fase. Leia mais em extrusão: a etapa final da reciclagem.
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7. Controle de qualidade
Antes de voltar ao mercado, o reciclado passa por ensaios que indicam se o lote atende à aplicação do cliente, como índice de fluidez, densidade, umidade, cor e presença de contaminantes.
Quem pretende montar uma operação encontra um roteiro em como investir em uma linha e maquinaria de reciclagem de plástico industrial.
Quais plásticos podem passar por reciclagem mecânica
A reciclagem mecânica é usada principalmente com termoplásticos, que podem ser fundidos e moldados de novo. Os mais reciclados no Brasil são PET, PEAD, PP e PEBD/PELBD. O PS e o EPS, conhecido como isopor, também seguem essa rota. Entenda como funciona a reciclagem de isopor.
Ela não é indicada para plásticos muito contaminados nem para embalagens multicamadas com materiais diferentes, que são difíceis de separar. Os termofixos, como alguns tipos de poliuretano (PU), também não podem ser fundidos novamente. Para identificar a resina de uma embalagem, consulte o guia dos 7 símbolos da reciclagem de plástico.
Reciclagem mecânica, química e energética: diferenças
| Tipo | Como funciona | Resultado |
|---|---|---|
| Mecânica | Processos físicos: separação, moagem, lavagem, secagem e extrusão | Grânulos (PCR) para novos produtos |
| Química | Quebra das cadeias poliméricas em moléculas menores | Matérias-primas químicas, como óleos e gases |
| Energética | Uso do resíduo como combustível, aproveitando seu poder calorífico | Energia térmica |
Saiba mais em como funcionam os 3 tipos de reciclagem de plástico.
Vantagens e desvantagens da reciclagem mecânica
Vantagens
- É uma tecnologia consolidada, com equipamentos disponíveis no mercado.
- Reduz o uso de resina virgem e o volume de resíduos enviados a aterros.
- Gera grânulos para aplicações variadas, de embalagens a peças técnicas.
Desvantagens
- Depende de resíduo limpo e bem separado por tipo de resina.
- O material perde parte das propriedades a cada novo processamento.
- Embalagens multicamadas e resíduos contaminados são difíceis de reciclar por essa rota.
- O reciclado disputa preço com a resina virgem, o que afeta a demanda.
Novidades da reciclagem mecânica
À medida que o tema ganha força na sociedade, surgem métodos para aumentar a eficiência da reciclagem mecânica e elevar a qualidade dos materiais reciclados.
Um exemplo são os sistemas de Advanced Mechanical Recycling (AMR), que combinam tecnologias para processar resíduos plásticos pós-consumo e obter materiais de alta pureza, prontos para novos produtos. Incluem pré-separação por inteligência artificial, trituração padronizada, lavagem intensa e separação com sensores ópticos avançados.
A separação por infravermelho próximo (NIR) segue como peça-chave nos centros de reciclagem de grande escala. Essa tecnologia identifica os tipos de plástico pelas propriedades espectrais e classifica-os automaticamente, aumentando a pureza dos flakes reciclados.
A adição de agentes compatibilizantes e extensores de cadeia ajuda a recuperar propriedades mecânicas de polímeros reciclados, especialmente em resinas como PET e PE. Isso permite usar material reciclado em aplicações mais exigentes, preservando o desempenho estrutural.
Pesquisas recentes propõem estruturas híbridas inspiradas em materiais naturais, como o nácar, combinando flocos reciclados com uma matriz de reforço. Os testes apontam redução de 89,5% na variabilidade do módulo elástico e de 42% na elongação à ruptura, aproximando o desempenho do plástico virgem.
Em relação aos microplásticos, estudos mostram que a trituração mecânica gera partículas finas. Novas abordagens de triagem e lavagem estão sendo desenvolvidas para reduzir esse impacto.
Outra frente envolve os polímeros adaptáveis covalentemente (CANs) em materiais termofixos, ainda em fase de pesquisa para o PU, mas com potencial para a reciclagem em sistemas mecânicos híbridos.
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Desafios e soluções da reciclagem do plástico
Essas tecnologias atacam uma das etapas mais críticas da reciclagem mecânica do plástico: a separação.
Na avaliação do especialista do Movimento Circular, a dificuldade vem da variedade de materiais coletados e da complexidade de distinguir os plásticos dos demais resíduos, como papel, vidro e orgânicos.
“Isso, por si só, já é um desafio considerável. Soma-se ainda o fato de que cada tipo de plástico, na reciclagem mecânica, é separado de forma individual e, portanto, também precisa ser separado”, comenta.
A contaminação dos plásticos por sujeira e outros resíduos também complica essa etapa e, quando é significativa, torna a separação ainda mais difícil. Por isso, a higiene do plástico para reciclagem faz diferença desde o descarte.
Para Montagnani, uma das saídas para esse desafio é adotar o conceito de design para circularidade desde a concepção dos produtos. Ou seja, as indústrias devem projetar embalagens e produtos plásticos que favoreçam o reuso ou facilitem a separação e a reciclagem no fim da vida útil.
“Utilizar materiais facilmente identificáveis, pensar em estruturas que sejam monomateriais ou que possuem compatibilidade no processo de reciclagem são algumas práticas que podem ser incorporadas ao design dos produtos”, reforça.
“Por isso, iniciativas como o Movimento Circular têm papel fundamental em promover a economia circular dos materiais, apoiando projetos de educação para um consumo consciente e que vise à correta disponibilização do material para a coleta seletiva e subsequente separação.”
Perguntas frequentes sobre reciclagem mecânica
O que é reciclagem mecânica?
É o reaproveitamento do plástico por processos físicos, como moagem, lavagem e extrusão, sem alterar sua estrutura química. O resíduo volta à indústria em forma de grânulos.
Quais são as etapas da reciclagem mecânica?
Separação e triagem, moagem, lavagem, secagem, aglutinação (no caso de filmes), extrusão e peletização e controle de qualidade.
Qual a diferença entre reciclagem mecânica e química?
Na mecânica, o plástico é moído, fundido e transformado em grânulos, mantendo a mesma estrutura química. Na química, as cadeias do polímero são quebradas em moléculas menores, que viram matérias-primas como óleos e gases.
Quais plásticos podem ser reciclados mecanicamente?
Principalmente os termoplásticos, como PET, PEAD, PP, PEBD/PELBD, PS e EPS. Plásticos muito contaminados, multicamadas e termofixos não são indicados para essa rota.
O que é a reciclagem mecânica de PET?
É o processo em que garrafas e embalagens de PET são separadas, moídas em flakes, lavadas, secas e extrudadas. Com processos de descontaminação aprovados pela Anvisa, o reciclado pode voltar a embalagens de alimentos como PET-PCR grau alimentício.
Qual é o índice de reciclagem mecânica do plástico no Brasil?
Foi de 21,3% em 2025, segundo o estudo da MaxiQuim para o Movimento Plástico Transforma. O país produziu 1,06 milhão de toneladas de resina pós-consumo reciclada no ano.
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