Com o impasse da última reunião do Tratado Global do Plástico em agosto, a COP30 se converteu no principal palco para entidades ligadas à economia circular e reciclagem debaterem o tema e levarem propostas em nível mundial. 

As cooperativas de catadoras e catadores tiveram presença marcante na conferência do clima, representadas pela ANCAT (Associação Nacional de Catadores e Catadores de Materiais Recicláveis), MNCR (Movimento Nacional dos Catadores), Unicatadores (União Nacional dos Catadores) e IAWP (Aliança Internacional dos Catadores).  

Entre as diversas atividades com participação dessas entidades estão painéis de debates e apresentações como a Pré-COP 30, na sede da Cooperativa Concaves, a Roda de Conversa sobre a Colaboração Público-Privada e Inovação para a Reciclagem no Brasil e o painel sobre Crédito de Carbono da Reciclagem, entre outras. 

Economia circular em pauta 

O Movimento Circular, iniciativa que desenvolve diversos projetos de economia circular, esteve na COP30 como parte da delegação brasileira e representante da sociedade civil, com a presença de seu idealizador e diretor-geral, Vinicius Saraceni, e da gerente de portfólio, Marina Amorim. 

Como parceiros convidados, a iniciativa levou, entre outros, a diretora da Central de Cooperativas de Materiais Recicláveis do DF e Entorno e a consultora associada da YBY Dinâmicas.  

Vale destacar que às vésperas da conferência, o Movimento Circular lançou a Certificação Circular, uma metodologia inédita que avalia o grau de maturidade circular de empresas de diferentes portes e setores e oferece um Raio X das práticas de circularidade e diretrizes para evolução contínua.  

Pioneira no Brasil e com potencial de referência global, a certificação conecta inovação, inclusão e regeneração, alinhando organizações aos compromissos climáticos internacionais e às melhores práticas de economia circular, e terá sua operação completa aberta ao público no primeiro semestre de 2026. 

Saraceni, que é também empreendedor social e fundador da Atina Educação, comemora o fato de que, pela primeira vez, a agenda oficial de uma COP incluiu dois dias temáticos que trouxeram a economia circular como tema estratégico, saindo da periferia do debate climático para entrar no centro das negociações.  

“Isso veio junto de um palco próprio para discutir logística reversa, reciclagem, novos modelos de negócios e inclusão de catadores, alinhando clima, resíduos e desenvolvimento econômico.”​ 

Como exemplo, ele cita a apresentação de casos nacionais, como o Recircula Brasil – cuja ampliação para outros materiais, como alumínio, vidro, papel, têxteis foi anunciada pelo governo federal durante a convenção – e soluções como biometano gerado a partir de resíduos, que apareceram em projetos de logística reversa e transporte de coleta movido a combustível renovável.​ 

Nina Lyz Nunes, representante da Fundação Energia e Saneamento (FES) na COP30, vai na mesma linha e afirma que, em meio a tantos temas envolvidos no debate das mudanças climáticas, a reciclagem e a economia circular receberam a devida atenção em Belém. 

“Foi possível encontrar essa discussão em vários painéis, tanto na Blue Zone, que é a zona das delegações, quanto na Green Zone, que é aberta ao público, e também nos eventos paralelos à COP.” 

Segundo ela, essas discussões trouxeram a economia circular como uma questão-chave da mitigação climática e da transição para uma economia de baixo carbono e combate às desigualdades socioambientais. 

“A gente viu dentro de um dos painéis que os catadores estão recebendo a devida atenção”, reforça. 

Consciência crescente 

Em sua participação na COP30, Saraceni constatou que há uma consciência crescente de que não é possível cumprir metas climáticas apenas com transição energética. Para isso, é necessário mudar também o modo como se produz, consome e gere esses materiais.  

Ele destaca estudos que mostram que a economia circular tem um potencial decisivo para a agenda do clima, porque ataca as emissões ligadas à extração de recursos, produção de materiais e descarte de resíduos, que não são resolvidas apenas com energia renovável.  

“Relatórios globais indicam que estratégias como redução de consumo de matériasprimas, prolongamento da vida útil de produtos, reuso e reciclagem podem responder por algo entre um quinto e quase metade das reduções necessárias de emissões”, lembra.  

Na sua avaliação, a aprovação de projetos como a Lei de Incentivo à Reciclagem, voltados a infraestrutura de triagem e pagamento justo aos catadores, mostra que parte dos formuladores de políticas já enxerga essa cadeia como estratégica para clima, inclusão social e desenvolvimento regional.​ 

Ao mesmo tempo, alerta, a percepção ainda é desigual. “Grandes empresas e alguns governos já incorporam metas de circularidade, mas muitas decisões de alto nível seguem tratando reciclagem apenas como ‘gestão de resíduos’, e não como política climática central”.  

Circularidade do plástico em resultados concretos 

O idealizador do Movimento Circular confia que combinação de novos instrumentos, como Recircula Brasil, o destaque ao biometano e a multiplicação de eventos paralelos, painéis e ativações sobre circularidade durante a COP30, apontam para resoluções que podem acelerar regulamentações, financiamento e escalonamento de projetos circulares, e se converterem em resultados concretos. 

“O desafio será garantir que essas decisões saiam da esfera voluntária e dos pilotos e se convertam em metas obrigatórias, recursos estáveis e reconhecimento formal do papel dos catadores na transição para uma economia de baixo carbono”, diz. 

​Na esfera internacional, ele aponta que um dos avanços mais promissores foi o lançamento do Global Circularity Protocol for Business, o primeiro marco global voluntário para medir, gerir e comunicar desempenho em circularidade nas empresas.  

Para Nina, da FES, as políticas públicas, programas e projetos que existem no Brasil demonstram para os demais países que é possível adaptar questões relacionadas à mitigação de gases de efeito estufa com a economia circular. 

Ela indica que o grande desafio é justamente ampliar o impacto desses temas para toda a população global; daí a importância de um evento como a COP30 ao reunir as delegações de tantos países e abrir amplo espaço para a participação ativa da sociedade civil. 

“Para que tudo aconteça, os esforços precisam ser dobrados e redobrados. Não podemos achar que está resolvido apenas com uma reunião, mas já avançamos muito e espero que a gente continue avançando para termos soluções mais concretas.” 

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