Na busca para encontrar soluções mais sustentáveis para sua atividade, a indústria do plástico investe constantemente em novas tecnologias, materiais e processos.

Uma das iniciativas que vêm ganhando cada vez mais espaço no mercado é a o reúso e o refil de embalagens.

Ou seja, embalagens devolvidas que voltam para a cadeia e podem ser utilizadas várias vezes, e aquelas em que o consumidor mantém a embalagem e faz apenas a reposição do produto.

Produto com forte potencial de crescimento

“O uso de embalagens retornáveis e refiláveis tem forte potencial de crescimento nos próximos anos”, estima Pier Pesce, Head do Cazoolo, Lab de design de embalagens circulares da Braskem.

Para ele, esse uso tende a ser impulsionado por metas ambientais, engajamento com a economia circular e mudanças no comportamento do consumidor.

“Mas é um trabalho que ainda precisa ser mais desenvolvido e impulsionado no Brasil”, reforça.

Criado em 2022, o Cazoolo tem como objetivo trazer inteligência coletiva para o desenvolvimento sustentável das embalagens e conta com uma infraestrutura à disposição da cadeia produtiva para a cocriação de novas soluções de embalagens e negócios.

Entre os projetos já desenvolvidos pelo Cazoolo, há parcerias com marcas como Vigor, Danone, Mars, Grendene, iFood, L´Oréal, Colgate-Palmolive, O Boticário, Mãe Terra e BASF.

“Mas o espaço não é focado apenas em grandes marcas, já que o mercado de pequenas e médias empresas também está com total abertura ao Lab”, acrescenta Pesce.

Benefícios do reúso e refil

O relatório Desbloqueando uma Revolução no Reúso, da Fundação Ellen MacArthur (2023), apontou os benefícios das embalagens plásticas reutilizáveis para bebidas, alimentos e cuidado pessoal.

Além das evidentes vantagens ambientais geradas pela circularidade e redução da produção de matéria-prima virgem, o estudo apontou benefícios econômicos e sociais das embalagens reutilizáveis:

  • Tornam os produtos mais acessíveis à população de baixa renda ao reduzir o preço dos produtos em porções menores ou oferecer descontos no retorno das embalagens; e
  • Geram empregos na logística, aproveitando, inclusive, a mão de obra especializada de catadoras e catadores nos processos de coleta, higienização e reabastecimento.

Desafios das embalagens reutilizáveis e refiláveis

Pesce adverte que, apesar do potencial de crescimento, o reúso e refil de embalagens encontra desafios de tecnologias de produção e logística, aceitação e engajamento dos consumidores, e vencimento de barreiras regulatórias e sanitárias.

Um case que ilustra bem esses desafios é a parceria da Cazoolo com a gigante de delivery online iFood no desenvolvimento de embalagens retornáveis. Um projeto que, segundo Pesce, tem grande potencial de impactar positivamente o mercado de delivery.

“E digo isso porque tudo foi desenvolvido com uma visão de design centrada no usuário, buscando entregar excelência na operação do restaurante, no consumo do alimento e na devolução da embalagem.”

Um dos desafios tecnológicos foi o desenvolvimento de uma embalagem que fosse de fácil reciclagem ao final do ciclo de vida, não vazasse durante o transporte, oferecesse facilidade de limpeza para viabilizar novos ciclos de uso e que fosse de alta eficiência tanto na operação do restaurante quanto na logística de envio e retorno para o reúso.

“Pesquisamos todos os requisitos de uma embalagem retornável e as maiores dores do delivery para criar um modelo ideal. Depois, rodamos o Circular Design Sprint, programa do Cazoolo focado em acelerar projetos circulares para criar, prototipar e refinar o projeto até termos a solução ideal, sempre em um curto espaço de tempo”, lembra Pesce.

Resultados do case iFood

O Cazoolo e o iFood realizaram uma pesquisa com proprietários de restaurantes e consumidores para desenvolver o design dessa embalagem retornável.

“Com o projeto finalizado, foi o momento de pegarmos a percepção dos restaurantes e consumidores, e tivemos respostas muito positivas”, diz o Head da Cazoolo.

A pesquisa levantou alguns pontos sobre o comportamento do consumidor:

  • 71% dos consumidores avaliaram a embalagem como boa ou ótima;
  • Daqueles que deram avaliação inferior, o motivo alegado foi a preocupação com devolução e não com a embalagem em si;
  • 79% dos consumidores desejavam ter até sete dias para devolver a embalagem e decidir o melhor dia da sua dinâmica semanal para a devolução;
  • 84% dos consumidores queriam que a embalagem fosse retirada em casa e que a coleta fosse agendada para otimizar seu tempo;
  • 87% dos consumidores desejavam fazer a entrega pessoalmente à pessoa responsável pela retirada.

“Uma preocupação do projeto foi o consumidor não querer devolver a embalagem, porque, se isso acontecesse, a solução perderia seu sentido”, constata Pesce.

Segundo ele, de modo geral, os consumidores queriam que a jornada atual se mantivesse, levando, no máximo, a embalagem até a portaria. A devolução em ponto de coleta reduziria a aderência e o local precisaria ser em um destino dentro da rotina semanal da pessoa.

Oportunidades para a indústria do plástico

Em meio aos numerosos projetos em embalagens sustentáveis desenvolvidos pelo Cazoolo – para redução do impacto ambiental e do consumo de energia, e aumento da reciclabilidade – dois outros se destacam pelo reúso e refil de embalagens:

Embalagem hidratante Boticário: Redução de 66,3% no impacto ambiental por meio de uma solução que evita desperdício, facilita a reciclabilidade, otimiza o uso de matéria-prima, reduz a jornada de consumo e abre espaço para um novo modelo de negócio com refil residencial.

Refillable Roll-on Deodorant Packaging: Nesse case autoral, a embalagem de desodorante roll-on refilável é fácil de reabastecer e higienizar, proporciona praticidade aos consumidores e reduz significativamente a geração de resíduos, alcançando até 33% de economia de material após cinco ciclos de uso.  O projeto foi vencedor no Design For a Better World 2023 e do prêmio Brasileiro de Design 2023.

Para Pesce, embalagens reutilizáveis e refiláveis criam oportunidades ligadas à sustentabilidade, inovação e redução de custos para a indústria de transformação do plástico.

“Além disso, abrem novos modelos de negócio, tais como embalagem como serviço, captura de dados sobre comportamento de consumo e monitoramento em tempo real de etapas da operação.”

Mas, relembra, existem desafios técnicos, logísticos e regulatórios que exigirão adaptação e investimento por parte da indústria de transformação do plástico.