Como você viu no primeiro conteúdo desta série, após a coleta seletiva, a primeira etapa da reciclagem é a separação. De métodos manuais a ultramodernos, os materiais são separados por tipo (papel, plástico, metal) e, no caso dos plásticos, por tipo de polímero.
Agora, você acompanha a próxima etapa do processo, a moagem.
Ela é considerada o “ponto de não retorno” da reciclagem, ou seja, quando o objeto (garrafa, pote, sacola) perde sua forma original e se transforma em fragmento para ganhar vida nova na economia circular.
Como os resíduos chegam até o moinho?
Antes de falarmos da moagem propriamente dita, é importante entender como os resíduos sólidos chegam até o moinho.
No método mais arcaico, a alimentação se dá de forma manual: o funcionário fica em pé em uma plataforma e joga o material para dentro da boca do moinho com as mãos ou uma pá.
Além de pouco eficiente, é também um método que oferece altos riscos laborais. Por isso, está em extinção, principalmente em razão da norma NR-12 (Segurança do Trabalho em Máquinas), que exige que o operador fique longe de partes móveis da máquina.
O método mais comum, inclusive já presente em operações de pequeno porte, é a alimentação do moinho por meio de esteira elevatória.
Nela, o resíduo triado é colocado em uma esteira de borracha – em alguns modelos, dotada de degraus para o material não escorregar – e levado até a boca do moinho.
Antes de o plástico cair, ele passa por uma polia ou rolo magnético que atrai metais ferrosos para evitar que, por exemplo, um parafuso que tenha escapado da triagem danifique as facas do moinho.
Armazenamento temporário antes da moagem
Vale lembrar que em nem toda operação o material sai direto da separação para a moagem em um fluxo contínuo. Muitas vezes, essas etapas se dão em locais diferentes e até com intervalo de dias.
Nesses casos, os resíduos triados são armazenados temporariamente em Big Bags. Esses sacos gigantes, que podem armazenar até 1 tonelada, são posteriormente levados até o moinho.
Dependendo da estrutura da operação, o material é depositado no início da esteira ou despejado diretamente no funil de alimentação do moinho por uma empilhadeira que suspende a bag.
Esse método é vantajoso principalmente para ganhar produtividade, pois permite que o moinho fique dedicado a um único tipo de polímero durante determinado período antes de ser limpo para moer outro tipo.
Em operações maiores e mais modernas, a separação e a moagem podem se dar em um ciclo contínuo. Assim, o material saído da triagem cai em um silo ou na esteira que alimentam o moinho de forma automática, fazendo inclusive o controle de consumo energético do motor.
Moinhos de reciclagem
A moagem é o coração da reciclagem. Como foi dito, é a partir daí que o plástico que antes era uma embalagem assume a forma que vai permitir transformá-lo em um novo produto. E o que faz pulsar esse coração é o moinho.
São máquinas de diferentes portes, potência e velocidade, dependendo do tamanho, objetivo e capacidade do reciclador.
O modelo mais utilizado para a reciclagem do plástico é o moinho de facas. A máquina possui um rotor central com facas móveis que giram em alta velocidade contra facas fixas na carcaça, fazendo com que o material seja filetado até ficar pequeno o suficiente (entre 8 mm e 12 mm) para passar pelos furos da peneira na base.
Uma tendência que vem despontando é a moagem úmida, na qual a água aplicada ao moinho resfria as facas e aumenta a vida útil do corte. Além disso, reduz o ruído, elimina a geração de pó e evita o aquecimento do resíduo, o que, dependendo do tipo de plástico, pode começar a degradar nesta etapa, comprometendo o resultado da reciclagem.
Já para peças grandes e pesadas (para-choques, paletes, painéis), são utilizados os moinhos do tipo trituradores de eixo (shredders). Eles possuem um ou dois eixos com dentes de aço que giram em baixa rotação e força extrema para “mastigar” os materiais.
Em algumas situações, o shredder faz uma pré-moagem antes de o resíduo ser encaminhado para o moinho de facas finalizar o resíduo no tamanho desejado.
Desafios da moagem do plástico
A moagem é uma das etapas mais onerosas do processo de reciclagem, pois além do investimento inicial e consumo de energia, demanda manutenção constante.
Resíduos que chegam ao moinho com muitas impurezas, em especial areia, comprometem o fio de corte das facas em pouco tempo. Também, como citado, uma peça metálica que escapa da etapa de separação pode quebrar as lâminas.
Por fim, independentemente de qualquer dano, chega um momento em que as facas precisam ser retiradas e retificadas para recuperar o fio de corte.
Facas cegas geram calor excessivo e gasto desnecessário de energia elétrica. Além disso, produzem mais pó, que deve descartado, provocando a perda uma quantidade significativa de material.
Vem daí a importância da manutenção preditiva. Se o moinho passa a gastar mais energia para moer a mesma quantidade de material, é sinal de que as facas estão perdendo o corte.
A moagem é também a etapa que oferece mais desafios para a segurança dos operadores. Por isso, os moinhos devem contemplar protocolos rígidos de bloqueio de energia, e os funcionários precisam trabalhar com EPI (Equipamento de Proteção Individual) adequados, como protetor auricular, já que o ruído pode ultrapassar 100 decibéis dependendo da rigidez do material.
Equipamentos periféricos da moagem
Para que a moagem funcione de forma eficiente e com ganho de produtividade, alguns periféricos são essenciais:
- Afiadora de facas: ter esse equipamento na própria planta representa ganho de tempo e economia de custos de logística. Manter um jogo de facas reserva é o ideal.
- Gabaritos: são peças metálicas usadas para garantir que a distância entre a faca móvel e a faca fixa seja exata, melhorando o desempenho do moinho.
- Sistema de exaustão: é o equipamento que suga os flakes resultantes da moagem, levando-os para o separador (funil que reduz a velocidade do ar e faz com que o plástico caia nas bags) e o coletor de pó, que evita o excesso de poeira plástica, mantendo o ambiente limpo e protegendo a saúde dos trabalhadores.
- Detector de metais: já mencionado, impede que uma peça metálica danifique as facas do moinho.
- Empacotador: estrutura que mantém a bag aberta para armazenamento dos flakes. Pode vir com balança integrada para que a bag saia com o peso exato para a venda ou a próxima etapa.
É importante ressaltar que, para diminuir o investimento inicial do reciclador, vários fornecedores oferecem a modalidade de locação de moinhos e outros equipamentos (Machine As a Service).
No próximo conteúdo, seguiremos acompanhando as etapas da reciclagem para falar da lavagem/secagem dos resíduos triturados. Continue no Mundo do Plástico.
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