A reciclagem de resíduos sólidos é o coração da economia circular. É um processo complexo, que demanda várias etapas e que, no Brasil, se encontra em diferentes estágios de maturidade tecnológica. 

Todo esse processo começa na coleta por catadores e cooperativas. Os resíduos são encaminhados para depósitos e empresas recicladoras antes de seguirem para as indústrias que processarão o reaproveitamento do material. 

A separação no processo de reciclagem 

Uma vez coletados, os resíduos passam pela primeira etapa da reciclagem, a separação. 

Como o nome indica, consiste na separação ou triagem por tipo de material e, no caso do plástico, por tipos diferentes de polímeros. 

Na opinião do professor Edson Grandisoli, biólogo e um dos criadores do Movimento Escolas pelo Clima, trata-se de uma das etapas mais críticas do processo, uma vez que influencia diretamente a qualidade, o valor e a viabilidade do material reciclado.  

“Uma triagem eficiente reduz perdas, melhora o aproveitamento dos resíduos e aumenta a rentabilidade da operação”, diz.  

Para ele, a qualidade dessa etapa depende de uma combinação de fatores: capacitação da equipe, boas condições de trabalho, organização do processo e, quando possível, o uso de tecnologias que auxiliem na identificação e classificação dos materiais. 

Separação manual, a mais comum 

As cooperativas e operações de menor porte, que ainda são maioria no país, operam com a separação manual. Em sua forma mais básica, o trabalho se dá em torno de uma mesa ou bancada, nas quais os resíduos são depositados. Os operadores fazem a separação por tipo de material, jogando-os em sacos ou fazendo-os escoar por cavidades. 

Em operações um pouco mais estruturadas, uma esteira elétrica transporta os resíduos de uma ponta à outra, com os operadores posicionados ao lado. Cada profissional é responsável por retirar da esteira o material da categoria específica que passa por ele. 

Existe ainda um meio-termo entre essas duas técnicas: a mesa rotativa. Ela gira lentamente como em um carrossel, com os operadores ao redor fazendo a separação conforme os resíduos se movimentam. 

Para as pequenas cooperativas, a triagem em mesa (ou bancada) oferece a vantagem de ter custo baixíssimo, dispensando a aquisição da esteira, consumo de energia elétrica e custos de manutenção. Além disso, garante boa dose de rigor na separação: uma vez que os materiais estão parados sobre a mesa, o operador tem mais tempo para analisar os tipos de resíduos. 

Por outro lado, esse método reduz drasticamente a produtividade – gasta-se muito tempo colocando a carga sobre a mesa, espalhando o material e limpando os rejeitos antes de iniciar uma nova carga. 

A ergonomia do trabalhador também é um ponto crítico, já que muitas vezes ele precisa se debruçar para alcançar materiais mais distantes da borda. 

A esteira elimina esse problema conduzindo o material até as mãos do separador. Porém, se os resíduos passam muito rápido ou existem camadas sobrepostas, pode ocorrer a chamada “fuga” do reciclável, quando o operador deixa de separar parte do material que passa por ele. 

Capacitação do profissional de separação 

A triagem manual, seja na mesa ou esteira, depende significativamente do conhecimento e da experiência do separador e exige uma combinação de agilidade motora, atenção visual e sensibilidade tátil e auditiva. 

Atenção visual: identificação do símbolo (o triângulo de setas com o número 1 a 7) que indica o tipo de polímero; reconhecimento das marcas ou produtos que utilizam sempre o mesmo polímero na embalagem (o PET de uma garrafa de água, por exemplo). 

Sensibilidade tátil: com a experiência, o operador aprende, por exemplo, que o PP se quebra se dobrado com força, o PEBD é macio e maleável, o PVC costuma ter um toque mais oleoso e o PP, quando dobrado, deixa uma marca esbranquiçada. 

Sensibilidade auditiva: plásticos como o PS emitem um som metálico e estalado quando batidos ou apertados. 

Para Grandisoli, que é também mestre em Ecologia, doutor em Educação e Sustentabilidade e pós-doutor pelo Instituto de Estudos Avançados da USP, cabe às cooperativas garantir capacitação permanente e de qualidade, especialmente quando o trabalhador é recém-contratado, além da aprendizagem prática do dia a dia.  

“Esses treinamentos incluem identificação de materiais, critérios de qualidade, segurança do trabalho e organização da triagem.” 

Na prática, existem algumas técnicas que podem qualificar o trabalho dos profissionais de separação: 

  • Acompanhamento por um profissional veterano; 
  • Elaboração de cartilhas com fotos de embalagens, marcas famosas e os símbolos de reciclagem; 
  • Instalação de quadros de referência acima das mesas ou baias da esteira com exemplos reais dos materiais. 

Tão ou mais importante quanto o treinamento sobre separação, os colaboradores devem ser capacitados em relação às normas de segurança: identificar potenciais perigos (agulhas, por exemplo) antes de tocá-los, usar EPIs (luvas anticorte, máscaras, protetores auriculares, botas reforçadas) e observar aspectos de ergonomia (postura e pausas para evitar Lesão por Esforço Repetitivo). 

A separação automatizada na reciclagem 

Empresas de reciclagem que tratam grandes volumes de resíduos e têm maior capacidade de investimento utilizam tecnologias que garantem maior produtividade e qualidade com o uso da tecnologia mecânica e digital. 

Pode-se classificar esses métodos como separação mecanizada, que utiliza processos físicos para separar materiais por tamanho, peso ou propriedades magnéticas, e separação automatizada, dotada de sensores avançados e braços robóticos. 

Na separação mecanizada, a esteira conduz os resíduos para o trommel, uma peneira rotativa em formato de cilindro. Conforme o tambor gira, itens menores caem pelos furos, limpando a carga de resíduos para os equipamentos seguintes. 

Já o separador balístico utiliza movimento para separar materiais em três categorias: resíduos leves e chatos (papel, papelão, filmes plásticos), resíduos pesados (garrafas PET, latas e frascos) e resíduos finos (pequenas partículas que ainda restaram). 

A separação de metais na linha de reciclagem é feita na maioria dos casos por meio de duas máquinas. 

overbelt (separador magnético) é um poderoso imã suspenso sobre a esteira que atrai os resíduos de aço e ferro (latas de conserva, tampinhas de metal) para isolá-los dos demais materiais. 

Para os não ferrosos, como alumínio, o ideal é o separador por Correntes de Foucault, um rotor de imãs que gira em alta velocidade e cria um campo magnético, induzindo uma corrente elétrica que empurra o material para fora da esteira. 

Linhas automatizadas mais modernas trabalham com sensores ópticos que, a partir de infravermelho, identificam a chamada “assinatura de luz” de cada resíduo, separando-o por categoria. 

Outras ainda mais avançadas lançam mão de Inteligência Artificial para treinar sistemas robóticos que distinguem os resíduos a partir de sua natureza (plástico, vidro, metal) e fazem seu recolhimento por meio de braços mecânicos. 

Separação manual ou automatizada, como escolher? 

Na avaliação de Grandisoli, o volume processado e a capacidade de investimento são fatores importantes na decisão entre uma linha manual e uma automatizada, mas não são os únicos.  

“Outros aspectos relevantes incluem o tipo de material recebido, o nível de contaminação, o espaço físico disponível, o custo de manutenção dos equipamentos, a disponibilidade de mão de obra e os objetivos operacionais da cooperativa ou empresa.” 

“A separação automatizada”, continua, “é indicada para grandes volumes e quando há necessidade de maior padronização e produtividade. Já a manual é mais comum em cooperativas e operações menores, pois exige menor investimento inicial e oferece maior flexibilidade para lidar com materiais variados e misturados”

O fator educação para reciclagem 

Com mais de 20 anos de atuação como professor da educação básica e colaborador na implantação do Currículo Paulista pela UNESCO, Grandisoli destaca seu trabalho em escolas que desejam criar um sistema de descarte e coleta seletivos mais eficiente.  

“O desafio do descarte seletivo é justamente jogar o resíduo certo na lixeira certa. O descarte incorreto promove contaminação, o que pode inviabilizar a reciclagem, bem como dificultar o trabalho de separação nas cooperativas.”  

Ele ressalta que, para resolver problemas como a presença de orgânicos, óleo ou produtos químicos em meio aos materiais recicláveis, é fundamental que a gestão de resíduos dialogue com as atividades pedagógicas das escolas ao longo de todas as etapas de ensino. 

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